• hikafigueiredo

"Delicatessen", de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, 1991

Filme do dia (378/2020) - "Delicatessen", de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, 1991 - Em uma realidade distópica, onde os alimentos escasseiam rapidamente, um açougueiro conduz, com mão de ferro, um pequeno condomínio de apartamentos. Ele é responsável pelo fornecimento de carne para os moradores - mas a maneira de adquirir essa carne é um tanto quanto controversa. Nesse contexto, chega ao prédio, um novo funcionário, Louision (Dominique Pinon), um ex-palhaço por quem Julie (Marie-Laurie Dougnac), filha do açougueiro, se apaixona.





Sou completamente suspeita para falar dessa obra, pois apaixonada por ela desde que a vi pela primeira vez em uma sessão da Mostra de Cinema de São Paulo, ainda na década de 90. Não dá para começar a discorrer sobre o filme sem utilizar a palavra "esquisita" - essa é a principal característica da obra, definitivamente. Tudo se passa em uma realidade distópica, onde já não existem muitos pudores quanto a condutas consideradas pouco civilizadas e está cada um por si, tentando, simplesmente, garantir sua sobrevivência. A realidade distópica imaginada pelos diretores difere um pouco do que vemos habitualmente em outros filmes - ainda que não haja comida, que as construções estejam em ruínas e o mundo seja uma terra sem lei, os serviços de correio e de coleta de lixo permanecem em funcionamento, assim como um certo mercado negro de mercadorias. As pessoas ainda acreditam na possibilidade de tudo "voltar ao normal" e vão levando suas vidinhas aos trancos e barrancos, em busca de alimento. Nessa realidade triste, cinza e doente, surge Louision, um ex-palhaço que consegue extrair poesia dessa existência insalubre, encantando a doce e frágil Julie. A narrativa é linear, e o roteiro, estranhíssimo, investe em certa comicidade trágica, trazendo, ao longo da história, algumas cenas que funcionam como pequenos esquetes. A obra é bem ritmada e a atmosfera é de estranhamento misturado com um tanto de angústia. Tão bizarra quanto o roteiro, é a direção de arte do filme, que mistura muito badulaque vintage, dando um ar meio anos cinquenta decadente às imagens. A fotografia é muito amarelada, o que reforça aquela ideia de coisa antiga, e os tons quentes marcam a paleta de cores. Os enquadramentos são os mais estranhos e criativos que se poderia imaginar - vários são os planos "tortos", inúmeros são os planos-detalhes de rostos que distorcem a imagem, tudo aqui causa estranhamento. Os diretores brincam muito com a edição de som e há várias cenas onde o personagem principal é a sonoridade, como, por exemplo, na cena do conserto da cama ou a da pintura do teto. O elenco, como tudo no filme, aposta em tipos diferentes e esquisitos, começando pelo protagonista Louision - Dominique Pinon não está nem de perto dentro dos padrões estéticos mais comuns, assim como Jean-Claude Dreyfus, que interpreta o açougueiro, e tem olhos muito protuberantes, o que é reforçado pelos planos muito próximos. Aliás, ninguém dentro do filme se destaca por ter uma beleza convencional, todo mundo é bastante... inusual. As interpretações são propositalmente exageradas, para causar estranhamento mesmo, e o mais natural é Dominique Pinon, que, junto com Marie-Laurie Dougnac, forma o casal docinho da história e os únicos personagens a guardarem certa humanidade e empatia pelos demais. Ah, eu já vi essa obra pelo menos umas quatro vezes e não deixo de gostar dela por mais que o tempo passe! Recomendo demais!!!!

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