• hikafigueiredo

"Destacamento Blood", de Spike Lee, 2020

Filme do dia (451/2020) - "Destacamento Blood", de Spike Lee, 2020 - Quatro veteranos negros da Guerra do Vietnã retornam ao país em busca dos restos mortais de seu comandante - também negro - e de uma grande fortuna em barras de ouro que, no passado, enterraram no meio da selva.





Eu gosto demais do engajamento de Spike Lee e da forma até panfletária como ele denuncia o preconceito racial e a herança maldita deixada pela escravidão da população negra. Gosto também da maneira como o diretor expõe os podres da "América" (a.k.a. EUA), confrontando questões sociais e políticas daquele país. Apesar disto, e mesmo considerando Spike Lee um diretor excepcional, tive sentimentos contraditórios em relação a esta nova obra do diretor. Isto porque toda a crítica que eu tanto curto está ali, mas em doses tão cavalares que eu tenho a sensação de não ter conseguido digerir o todo. A impressão que me restou é que Spike Lee quis abraçar o mundo com as pernas e acabou falando superficialmente de tudo e, aprofundadamente, de quase nada. É evidente que a questão racial é tratada no filme - em especial aquela que relaciona a quase completa ausência de direitos da população negra norte-americana com o envio de soldados negros para o front da guerra do Vietnã como "bucha de canhão", mostrando um verdadeiro contrassenso acerca do engajamento dos soldados negros a um embate que em nada lhes beneficiava e que sequer lhes dizia respeito (jamais vou esquecer da lapidar frase de Muhhamad Ali acerca desta guerra: "Nenhum vietnamita jamais me chamou de 'nigger'", evidenciando que o inimigo de seu povo era outro). Mas o tema se diluiu no meio de tantas outras questões, como os traumas de guerra, o impacto da Guerra do Vietnã para o povo norte-americano como um todo e para a população local, o trabalho de ONGs em áreas de conflito, o movimento "Black Lives Matter" e até mesmo a eleição de Trump que eu me senti no meio de um tiroteio de informações, sem conseguir ter tempo para analisar as correlações entre tudo que estava lá. Eu, particularmente, prefiro filmes que abraçam menos questões, mas que conseguem esmiuçá-las até não sobrarem detalhes - o que não foi o caso. Ainda assim, não posso dizer que o filme é ruim ou desimportante, apenas o achei "excessivo". A narrativa alterna o presente com algumas cenas do passado do grupo - gostei como colocaram os mesmos atores "coroas" para interpretarem seus personagens na juventude, de um jeito que não dava para confundir quem era quem na história. Gostei também das várias inserções de arquivos - fotos, notícias, filmagens - da época ao longo da narrativa, sempre de forma bem didática (afinal, o público norte-americano não costuma entender muita sutileza, tem que ser tudo bem escancarado mesmo). O ritmo é bem oscilante - temos momentos bem calmos e lentos com outros muito intensos, mas tudo muito bem orquestrado por Spike Lee. Tecnicamente, o filme é irretocável - fotografia, efeitos especiais, edição de som, direção de arte, tudo está em seu devido lugar. Da mesma maneira, o elenco não poderia estar mais afinado. Todos os atores e atrizes participantes vestiram a camiseta e, visivelmente, entregaram-se aos seus personagens, mas vale destacar alguns trabalhos: o primeiro e decisivo foi a interpretação de Delroy Lindo como Paul, o personagem mais complexo e contraditório do grupo. Paul carrega consigo segredos, culpas, medos, ódios e Delroy Lindo consegue expor toda essa espessura do personagem; gostei demais do trabalho de Clarke Peters como Otis, um personagem extremamente simpático e conciliador; Jonathan Majors também teve de suar a camisa para interpretar o personagem David, outro que trazia consigo uma carga emocional pesada por sua relação com Paul; impossível não destacar a participação pequena, mas fundamental, de Chadwick Boseman como Stormin' Norman, num papel de grande significância, pois traz em seu bojo a concepção de líder negro, heroico, justo e consciente, quase uma continuação de seu "Pantera Negra"; e jamais vou deixar de pontuar uma participação de Jean Reno em um filme (desde que passei de detestá-lo para adorá-lo depois de assistir a "O Profissional"- 1994). O filme é muito bom, mas fiquei com uma sensação de "empanturramento" que talvez ainda até se resolva com o tempo, não sei. Como tudo do diretor, acho que traz críticas importantes, essenciais, e vale a pena ser visto sim. Não obstante as ressalvas já mencionadas, recomendo a visita. PS - AMEI o poster do filme!!!!

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