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“Deuses e Monstros”, de Bill Condon, 1998

  • hikafigueiredo
  • 20 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (70/2025) – “Deuses e Monstros”, de Bill Condon, 1998 – Los Angeles, Califórnia, 1957. O outrora famoso diretor de cinema James Whale (Ian McKellen) vive praticamente recluso em sua confortável casa em Los Angeles. Afastado do burburinho de Hollywood após ser rejeitado por expor sua homossexualidade, Whale encante-se pela beleza de seu novo jardineiro, Clayton Boone (Brendan Fraser), e logo se aproxima do rapaz, que, alheio às intenções de Whale, aceita posar para desenhos do cineasta. Inicia-se, assim, uma amizade conflituosa, mas sincera.


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Nesta cinebiografia romantizada do diretor James Whale acompanhamos suas últimas semanas sob a perspectiva de sua relação com o novo jardineiro de sua casa. Ainda que tudo indique que Clayton Boone seja apenas um personagem fictício, é certo que as questões envolvendo o diretor James Whale são bastante reais e estão lastreadas pela biografia do cineasta. No filme, é através de sua relação com o jardineiro que são apresentados e discutidos não apenas os dilemas e angústias do diretor, mas, ainda, suas memórias, seus medos e desejos. Segundo a narrativa, Whale afastou-se – ou, talvez, tenha sido afastado – de Hollywood em decorrência de se assumir, publicamente, homossexual, algo impensável para a época e para aquela sociedade preconceituosa e hipócrita. No fim de sua vida, com a saúde abalada, reminiscências vinham para assombrar o cineasta, trazendo os dissabores de suas infância e adolescência humildes, as mágoas relacionadas ao pai castrador e homofóbico, a saudade do tempo em que era famoso, e usufruía de prestígio junto à sociedade, ao mesmo tempo em que participava de festas íntimas rodeadas de belos homens jovens. O filme sugere que Whale, se por um lado foi alçado à fama em Hollywood (elevado aos deuses do cinema), também sentia-se, em parte, um monstro, por conta de sua origem humilde e pela rejeição ligada à sua homossexualidade. Há, na obra, explícito paralelo entre o cineasta e o personagem de seu filme mais famoso – “Frankenstein” (1931), retomado posteriormente em “A Noiva de Frankestein” (1935): como a criatura, Whale sentia-se só, estranho, incompreendido e sem espaço na sociedade. Além das angústias do diretor que surgem à partir da relação entre ele e Boone, existe um jogo de forças intenso entre os dois personagens: enquanto Whale tenta sutilmente seduzir o rapaz, muitos anos mais jovem e incrivelmente belo e viril, Boone reforça, inúmeras vezes, seu desinteresse sexual por homens, ao mesmo tempo em que se sente atraído e envolvido pelas histórias de glamour e sucesso do cineasta. Ainda que Whale perceba a rejeição dos homens homossexuais mais novos por conta de sua idade, é muito claro que ele tem forte domínio sobre o jardineiro, não apenas por conta de seu passado glamouroso, mas principalmente por sua ascendência intelectual. O filme trata de todas essas questões com sensibilidade, mas com uma delicadeza sóbria, contida, sem sobressaltos. A cronologia da narrativa é constantemente interrompida por flashbacks decorrentes das memórias do diretor ou, ainda, por divagações ou sonhos de Whale. O ritmo é igualmente contido - mas não exatamente lento – e constante. A atmosfera mescla a tensão homoerótica existente entre os personagens, a mágoa da infância difícil e a nostalgia da época hollywoodiana de Whale. O filme conta com um desenho de produção de época caprichado e uma belíssima e tocante trilha sonora. O elenco, afinadíssimo, traz Ian McKellen excepcional como James Whale, um personagem angustiado, depressivo, mas sedutor ao extremo; Brendan Fraser interpreta Clayton Boone e imprime, ao personagem, certa ingenuidade aliada à muito simplicidade intelectual; Lynn Redgrave interpreta a governanta Hanna, um contraponto à relação de Whale e Boone e figura central na dinâmica da narrativa. O filme, aplaudido pela crítica, recebeu inúmeras indicações a prêmios diversos: Melhores Ator, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado no Oscar (1999); Melhores Filme, Ator e Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro (1999); Melhor Atriz Coadjuvante no BAFTA (1999) e Melhores Filme e Ator no Critics’ Choice Awards (1999); destes, Lynn Redgrave foi agraciada com o Globo de Ouro por sua interpretação. Eu gostei muito da obra e recomendo com muito gosto. O filme não está disponível em streaming, só em torrent e mídia física.

 
 
 

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