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"Diamantes da Noite", de Jan Nemec, 1964

Filme do dia (240/2020) - "Diamantes da Noite", de Jan Nemec, 1964 - Durante a Segunda Guerra, em uma Tchecoslováquia ocupada pelo exército alemão, dois jovens fogem de um trem que os levaria para um campo de concentração, tendo início uma fuga desesperada pela vida.





Integrante do movimento da Nouvelle Vague Tcheca, e baseado no romance "A Escuridão Não Tem Sombras", de Arnost Lustig, o filme retrata a luta de dois jovens pela vida após fugirem de um trem que os levaria para a morte. Autoral ao extremo, a obra mostra-se profundamente sensorial, despertando desespero e uma forte angústia no espectador. A narrativa caótica é completamente não-linear, alternando diferentes momentos da fuga e as memórias de um dos rapazes. De maneira semelhante, o filme alterna diferentes ritmos, podendo ser bastante lento em um momento e, em outro, muito ágil. A fotografia P&B também tem dois tempos: durante a fuga, privilegia-se uma fotografia bastante contrastada, prevalecendo a escuridão, com momentos em que a tela chega a ficar quase totalmente preta; já nas cenas das lembranças, a fotografia, embora igualmente contrastada, privilegia a claridade, o branco, muitas vezes, estourando de tão claro. Existe, ainda, a alternância de planos bem abertos com outros de detalhes - MUITOS planos de detalhes, que vão de partes do corpo como mãos, pés, bocas, a objetos cenográficos e partes do cenário, como um tronco, uma poça, um pão. Esses planos de detalhe esticam o tempo, pois inexiste ação neles, criando um sensação de tempo morto que vem acompanhado de uma angústia monumental. Muitos são as cenas de câmera na mão, principalmente durante a fuga desembestada pela floresta. A obra tem pouquíssimas falas e quase nenhuma música,de maneira que os sons ambientes parecem crescer, tomando todo o filme. Em vários momentos pude perceber que esse som ambiente foi propositalmente aumentado, como na cena do jantar, onde as pessoas mastigando e engolindo criou um contraste chocante e incômodo com a fome vivenciada pelos dois rapazes. Embora sejam dois os rapazes em fuga, a presença quase constante é de apenas um deles, interpretado por Ladislav Jánsky. Como quase não há diálogos, Jánsky teve de fazer milagre com sua expressão facial e corpo para transmitir todo seu desespero, medo, fome, angústia, descrença, e todas demais emoções necessárias para a construção da narrativa - e tenho de falar que ele conseguiu alcançar seu objetivo com muito sucesso. Destaque para a cena da perseguição pelos caçadores e para a angustiante cena do jantar. O filme é muito muito bom, mas é imprescindível que o espectador esteja acostumado ou, ao menos, disposto a assistir a uma obra bem pouco convencional, bastante diferente do cinemão clássico. Vale muito a pena e recomendo.

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