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  • hikafigueiredo

“Em Chamas”, de Zarrar Kahn, 2023

Filme do dia (144/2023) – “Em Chamas”, de Zarrar Kahn, 2023 – Paquistão. A estudante de medicina Mariam (Ramesha Nawal) acaba de perder o avô, patriarca da família. Enquanto seu tio-avô Nasir (Adnan Shah) ronda sua mãe Fariha (Bakhtawar Mazhar) com claro interesse na herança do irmão, a jovem conhece Asad (Omar Javaid), com quem passa a ter um flerte. Gradualmente, Mariam começará a ser assombrada por visões relacionadas a homens ameaçadores.





Com evidente intenção de criticar o patriarcalismo e sexismo paquistanês, Zarrar Kahn nos premia com um interessante filme de terror repleto de metáforas. Na história, a família de Mariam acaba de perder seu patriarca – o avô materno de Mariam, um homem conhecido por seu caráter e retidão, o qual cuidava da filha viúva e dos dois netos. A situação torna-se frágil, pois, no país, a herança raramente é passada para os descendentes do gênero feminino. O tio-avô de Mariam passa a rondar a família, sempre muito solícito, mas a estudante desconfia de suas intenções e suspeita que ele quer a herança do irmão. Em meio ao seu luto, o receio de perder a casa onde mora para o tio-avô e a tensão das provas finais de seu curso, Mariam conhece Asad, primo de uma amiga, recém vindo do Canadá. Os dois jovens dão início a um flerte, algo terrivelmente reprovável na cultura paquistanesa. E aí começa a descida de Mariam ao inferno, pois ela passa a ser assombrada por assustadoras visões. Rapidamente, percebemos que tais visões – sempre de figuras masculinas e que, com frequência, assediam a personagem – relacionam-se ao medo de ser descoberta e à culpa por estar transgredindo regras sociais que pregam o total afastamento de homens e mulheres. Quanto mais Mariam é assombrada por tais visões, mais ela se fecha com seus problemas e questões, entrando em um perigoso círculo vicioso que passa, inclusive, a influenciar na saúde da jovem. É interessante perceber que muitas das questões de Mariam foram ou são, também, de sua mãe Fariha, a indicar o quanto medos, culpas, castigos (autoimpostos ou não), julgamentos, são crônicos no país e reproduzidos de geração em geração. A narrativa, no início é linear e realista, mas, paulatinamente, torna-se não-linear e fantástica, pois visões e realidade passam a se confundir. Há uma atmosfera de tensão e assombro, muito bem mesclada com um tom onírico. Não se engane com o início lento – a obra vai ganhar muito ritmo até seu desfecho. O filme está mais para o terror psicológico, mas temos umas duas ou três cenas de jumpscare, muito bem encaixadas. A obra aproveita muito bem a arquitetura de Karachi, cidade onde foi rodado o filme, para dar uma sensação de confusão, claustrofobia e perda de referências (vamos combinar que Karachi parece ser um lugar caótico). A fotografia faz uso de tons quentes, muito jogo de luz e sombras e saturação de cores – gostei bastante do visual do filme. A trilha musical pende para a musicalidade local. As interpretações são bastante naturalistas, não lembrando em nada aquelas atuações teatrais do país vizinho, Índia. Gostei bastante da expressividade de Ramesha Nawal, que interpreta Mariam, ela é ótima. O mesmo já não digo de Bakhtawar Mazhar, que interpreta a mãe Fariha, a qual considerei meio canastrona. O filme traça um diálogo bem interessante com o filme “Men” (2022) – eles têm uma vibe bem parecida, assim como a temática. O filme me prendeu do começo ao fim e, ainda que tenha ficado com algumas dúvidas, isso não estragou a experiência. Eu curti, viu, achei bem interessante.

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