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  • hikafigueiredo

“Ema”, de Pablo Larraín, 2019

Filme do dia (35/2024) – “Ema”, de Pablo Larraín, 2019 – Após um incidente trágico e violento, o casal Ema (Mariana di Girolamo) e Gastón (Gael García Bernal), que há cerca de um ano adotara uma criança colombiana órfã, decide devolver o menino para o abrigo. A controversa decisão faz com que a relação do casal comece a desintegrar, enquanto evidencia a insatisfação de Ema em renunciar à maternidade. Decidida a recuperar o filho, Ema demonstrará não ter limites para suas aspirações.




 

Eu tenho grande apreço pelos filmes que já vi do diretor Pablo Larraín. Gosto especialmente das obras realizadas em seu país de origem, o Chile (acho que muitos diretores se perdem quando abandonam suas raízes e vão para os EUA, pois Hollywood é hábil em engolir talentos internacionais). Assim, foi com ansiedade que optei por assistir “Ema” – e confesso que o resultado não foi exatamente o que eu esperava. Diferentemente do que a sinopse pode sugerir, o filme não se trata de um drama intimista e profundo sobra a maternidade; tampouco, como algumas críticas afirmam, trata-se de uma trajetória de autodescoberta de Ema. Pela minha ótica, a obra discorre sobre poder e liberdade – ambos considerados em seus aspectos mais negativos. A narrativa se concentra na protagonista Ema, uma personagem aparentemente enigmática no início da história, mas que, paulatinamente, vai expondo uma perversidade incomum. Ema não tem limites, é completamente amoral e faz uso de toda a sua sedução – concebida aqui na sua acepção mais ampla – para conquistar aquilo que deseja. E o que Ema deseja? Mais que tudo, a personagem deseja poder – o poder de ser quem quiser e fazer o que quiser, sem se importar com qualquer consequência. Já vi muitos filmes com personagens verdadeiramente podres, mas admito que poucos chegaram aos pés de Ema. Talvez por ter sentido absoluta aversão pela protagonista, a quem vi, desde muito cedo, como agente do caos, e, mais adiante, como uma completa psicopata, não consegui me conectar com a história. O filme traz, também, inúmeras cenas de dança e sexo, sempre com o intuito de pontuar a libertação de qualquer freio – incluindo, aqui, os freios éticos e morais. Eu achei o filme carregado de uma erotização vazia, insípida, que não conseguiu me seduzir por um segundo sequer – são cenas e cenas de sexo filmado belamente, mas tão frio quanto o gelo, inclusive pelo uso constante de uma luz azul, o que me desperta o palpite de que era exatamente essa a intenção do diretor. Eu não vejo Ema como alguém passional – ela é fria e calculista, extremamente meticulosa em seus passos. Para não dizer que não gostei totalmente da obra, achei a cena final genial e, para mim, salvou completamente o filme dando-lhe o “fechamento” ideal. Formalmente, é uma obra bastante estética – não só pela fotografia apurada, mas, também, pelas escolhas do desenho de produção. Admito que me incomodei um pouco com a montagem no começo do filme – tudo muito fragmentado, sem um andamento fluido, mas acho que depois me acostumei com esse ritmo “quebrado” e consegui me relacionar melhor com ele (mais uma vez, acredito que isso foi uma concepção autoral que nos remete à relação errática de Ema com as pessoas ao seu redor). A narrativa é linear, mas cheia de lapsos temporais. A atmosfera, para mim, foi de incômodo constante – eu simplesmente não me senti à vontade com o andamento da história. Em relação às interpretações, Mariana di Girolamo me transmitiu uma frieza que me perturbou, até porque se choca com um suposto ardor (sexual e afetivo), que nunca me convenceu – e pela terceira vez, acredito que foi intencional, tanto quanto a aparência física “falsa” da personagem, com aquele cabelo loiro-amarelado, natural como planta de shopping. Gael García Bernal interpreta o marido Gastón – méééé, já o vi em melhores papeis, inclusive nos filmes do próprio Larraín. Santiago Cabrera interpreta Anibal – nada de excepcional; e Paola Giannini dá vida a Raquel – gostei muito do trabalho dela, sua personagem é milimetricamente “enredada” por Ema. Enfim, acredito que eu não tenha me conectado com o filme por conta de uma sinopse enganosa, mas, talvez, digerindo a obra um pouco mais, eu ainda venha a gostar dela de fato.

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