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“Vestígios do Dia”, de James Ivory, 1993

  • hikafigueiredo
  • 20 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (60/2025) – “Vestígios do Dia”, de James Ivory, 1993 – Inglaterra, 1958. O mordomo James Stevens (Anthony Hopkins) recebe alguns dias de descanso de seu trabalho e resolve viajar para encontrar a antiga governanta Sarah Kenton (Emma Thompson), por quem um dia nutriu sentimentos. Enquanto viaja, recorda passagens da época em que trabalhavam juntos na propriedade Darlington Hall, evocando acontecimentos do pré-guerra.


 

Baseado no romance homônimo de Kazuo Ishiguro, o filme – sensível e extremamente comovente – expõe questões políticas do entreguerras vistas pelos olhos dos serviçais de uma imponente mansão inglesa. Acompanhamos o cotidiano de Mr. Stevens – um eficiente e dedicado mordomo, o qual comanda, com severidade e austeridade, os trabalhos dos demais empregados da casa. Certo dia, chega, à propriedade, a nova governanta, Miss Sarah Kenton, que, à despeito de sua pouca idade, logo demonstra ser tão eficiente e rigorosa com seu trabalho quanto Mr. Stevens. Ao longo de anos, mordomo e governanta trabalham juntos, sempre tratando-se com profunda formalidade, apesar de claramente terem sentimentos um pelo outro. Enquanto os afetos dos funcionários da propriedade mantêm-se ocultos, Mr. Stevens e Miss Kenton acompanham o desenrolar de encontros políticos que acontecem na mansão e que evidenciam a tentativa do Conde de Darlington em se aproximar da Alemanha nazista para evitar a guerra. O filme discorre sobre duas linhas que correm paralelas: uma trata do panorama político da época, em que a Alemanha começa a demonstrar seu ímpeto imperialista, mas ainda flerta com o Reino Unido em busca de alianças. Esse fundo histórico mostra-se fiel à atmosfera política daquele momento, ainda que inclua personagens fictícios à narrativa, os quais se misturam a citações de pessoas reais; a segunda linha, trata do cotidiano dos empregados da propriedade, com destaque para o mordomo e a governanta. A narrativa consegue mostrar, de uma maneira muito vívida, toda a hierarquia, a solenidade e a formalidade existente nas relações humanas naquele ambiente de pompa e arrogância. Stevens é a imagem mais severa de um mordomo em meio à nobreza inglesa. Ele abandona sua vida pessoal, seus sentimentos, seus desejos, em nome de sua vida profissional. Há, nele, um excesso de sobriedade, de auto repressão e lealdade que ultrapassam o razoável. Já a governanta Sarah Kenton, muito embora mostre-se igualmente séria e eficiente no seu trabalho, deixa espaço para sua humanidade, seus sentimentos e suas convicções, os quais são demonstrados pontualmente. Eu fiquei extremamente tocada pela história de amor reprimido entre os personagens e ainda mais incomodada pela dedicação “canina” do personagem Stevens – não, aquilo não era correto, era desumano! Formalmente, o filme é convencional e belíssimo. O desenho de produção de época é impecável e torna-se ainda mais glorioso pela fotografia cuidadosa, em tons quentes e iluminação delicada. Mas nada se compara ao trabalho de interpretação de Anthony Hopkins como o contido Stevens – suas expressões faciais e corporais são todas minimalistas, seu personagem exige extrema sobriedade e absoluto controle de qualquer mínima emoção; igualmente maravilhosa é a atuação de Emma Thompson – sua Sarah Kenton é infinitamente mais humana que Stevens, ela se permite sentir, expressar-se e até mesmo chorar, ela tenta arrancar Stevens de sua casca, em vão, mas sempre de acordo com as formalidades de seus cargos. No elenco, ainda, James Fox como o Conde de Darlington, Christopher Reeve como o congressista estadunidense Jack Lewis e Hugh Grant como Reginald Cardinal, afilhado de Lord Darlington. O filme é maravilhoso, mas triste que só. A obra concorreu ao Oscar (1994) em inúmeras categorias (Melhores Filme, Diretor, Ator, Atriz, Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Figurino e Trilha Sonora), bem como Globo de Ouro (1994), mas acabou só levando um Prêmio BAFTA (1994) de Melhor Ator para Hopkins. Apesar de muito diferentes, eu vejo um diálogo do filme com o excepcional “Amor à Flor da Pele” (2000) – ambos me arrasaram... Segundo o Justwatch, o filme está para alugar no Apple TV. Também em mídia física e torrent. Recomendo DEMAIS!!!!

 
 
 

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