• hikafigueiredo

"Eu, Tonya", de Craig Gillespie, 2017

Filme do dia (59/2018) - "Eu, Tonya", de Craig Gillespie, 2017 - EUA, décadas de 80/90 - A jovem Tonya Harding (Margot Robbie), treinada desde pequena para ser uma campeã na patinação artística, começa despontar no esporte. Mas sua mãe LaVona (Allison Janney), seu namorado/marido Jeff (Sebastian Stan) e sua imagem fora dos "padrões" do esporte ameaçam seu sonho de se tornar uma campeã olímpica.





Nesta interessante cinebiografia, temos a história do maior escândalo da patinação artística, segundo a versão da principal suspeita pelo terrível incidente - Tonya Harding. Considerando que a narrativa seja verdadeira (e aqui concordo com uma fala da protagonista que diz que a verdade nada mais é que a leitura de alguém sobre um fato), diria que o tema central do filme nem é o incidente em si, mas, sim, a questão das relações abusivas e o resultado deste tipo de relação. Desde que nasceu, Tonya (sobre)viveu com uma mãe violenta e abusiva. Obrigada a treinar sem descanso, humilhada, xingada, diminuída, Tonya suportou toda a sorte de agressões físicas e psicológicas. Ao se apaixonar, Tonya - como era de se esperar - envolveu-se com um homem igualmente abusivo, de forma que permaneceu sendo humilhada e espancada, agora pelo companheiro. É evidente que alguém que cresça num ambiente de abuso não consiga reconhecer a situação e tenha a tendência de aceitar outras relações abusivas, tidas como "normais". Não é possível saber se Tonya era uma grande fdp ou não, mas, se metade do que aparece no filme for real, ela, certamente, foi muito mais vítima do que responsável por qualquer coisa que tenha vivido. Prepare-se para ter muita pena da personagem (ao final da obra, a verdadeira Tonya fez questão de ressaltar que é uma boa mãe - para mim, foi doloroso perceber a importância dada a essa afirmação, mostrando quão ferida e traumatizada Tonya é por ter sido vítima da mãe abusiva e o quanto lutou para não reproduzir essa relação tóxica com seus filhos). Saindo do tema, para a forma, achei interessantíssima a opção de construir o filme a partir dos "depoimentos" dos envolvidos - toda a narrativa é pautada nas declarações dos vários personagens - e, na minha opinião, deu muito certo. Com relação à construção dos personagens, okay, foi bem maniqueísta - mas, considerando que a base é a versão de Tonya, é claro que não poderia ser muito diferente. Destaque para a montagem que alternou tempo passado (narrativa) com tempo presente (depoimentos), numa estrutura bem diferente e eficaz. Destaque, também, para os efeitos especiais que possibilitaram a ilusão de que era a própria Margot Robbie quem protagonizava os números de patinação artística (imagino o trampo que não foi colocar digitalmente o rosto da atriz num corpo em movimento!). Outro ponto que chamou minha atenção (lembrando, sempre, quão "surda" eu sou para cinema) foi a trilha sonora com MUITA música boa de "gente" como Siouxie and The Banshees, Dire Straits, Supertramp, Heart, ZZ Top, e por aí vai. Mas o filme não teria sido a mesma coisa se não fosse as interpretações excepcionais de Margot Robbie e Allyson Janney - Margot conseguiu dar volume à jovem e controversa Tonya (que além dos relacionamentos abusivos ainda sofreu o preconceito de não se encaixar no estereótipo esperado para uma patinadora no gelo). Já Janney assumiu a tarefa ingrata de interpretar uma mãe horrorosa, fria, cruel e egoísta, coisa nada fácil. Acho que o papel de Margot foi bem mais exigente, mas Janney também se saiu bastante bem (discordando de um amigo que achou sua interpretação caricata - infelizmente tem gente daquele jeito mesmo por aí). Olha, me surpreendi positivamente com o filme, não esperava tanto. Vale a pena e recomendo.

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