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“Feito Pipa”, de Allan Deberton, 2026

hikafigueiredo
há 6 horas
2 min de leitura

Filme do dia (47/2026) – “Feito Pipa”, de Allan Deberton, 2026 – Gugu (Yuri Gomes) é um menino de onze anos criado pela avó Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada, que permite que ele se expresse livremente, revelando uma possível futura homossexualidade. Quando Dilma começa a dar sinais de demência senil, Gugu tenta, a todo custo, esconder a condição da avó, temendo ter de morar com seu pai homofóbico (Lázaro Ramos).


 

Em um delicado momento político do país, esse filme é uma verdadeira ode à liberdade e à livre expressão, mas, também, ao amor e ao respeito pela identidade alheia. Gugu expõe seus gostos livremente, com o apoio de sua avó: ele gosta de se maquiar, usar brincos e roupas consideradas femininas. Em momento algum Dilma tolhe a expressão de identidade de Gugu, fazendo dele uma criança livre e feliz. No entanto, uma nuvem paira no horizonte do menino – a avó começa a dar sinais de demência senil e existe a chance de ele ter de morar com seu pai homofóbico que, embora tenha afeto pelo filho, não aceita seu jeito, seus gostos e a forma como se expressa na sociedade. O filme é delicado e trabalha a complexidade dos personagens: Gugu ama dançar e dublar músicas, mas também é apaixonado por jogar futebol, algo visto como “esporte de menino”, mostrando que o personagem é multifacetado e não um mero estereótipo; da mesma forma, Batista, o pai, mostra-se afetuoso com o filho, ao mesmo tempo em que rejeita qualquer expressão do menino que possa ser interpretada como uma eventual homossexualidade, ou seja, ele não é aquele personagem estanque, um homofóbico violento, estúpido e sem qualquer bom sentimento. Mesmo a relação entre Gugu e os colegas é complexa – as desavenças que ocorrem são muito mais pelo seu sucesso no futebol e a decorrente inveja alheia do que por seu jeito não convencional de ser. O filme traz uma doçura intrínseca, especialmente no que se refere à relação do menino com a sua avó – vou confessar que o filme me arrancou lágrimas em duas cenas, coisa bastante incomum, isso sem ter de “apelar” como nos dramas estadunidenses. Gostei da associação sutil entre o espaço e o que acontece na narrativa - enquanto igreja, casas e postes vão se revelando dentro da barragem próxima, cujo nível de água se encontra baixo, afetos e rejeições também são, gradualmente, revelados nas relações entre os personagens. Tenho de ressaltar, ainda, o trabalho magnífico do trio de atores principais – Yuri Gomes não pesa a mão em Gugu, ele tem nuances; Lázaro Ramos sempre esbanja talento e isso é notório e aqui o espectador não consegue detestá-lo por seu preconceito, a gente torce para que ele apenas mude sua conduta; mas é Teca Pereira quem se destaca por seu trabalho como a avó Dilma – ela está icônica no papel, amei! O filme foi escolhido como o representante brasileiro no Oscar – apesar de ter gostado bastante da obra, acho que não tem cara do prêmio não. Emocionante, recomendo demais! Trigésimo segundo e último filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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