“Um Pouco de Esperança”, de Ali Asgari, 2026
Filme do dia (46/2026) – “Um Pouco de Esperança”, de Ali Asgari, 2026 – O médico Arash (Misagh Zareh) tem sua licença profissional cassada e seu consultório lacrado após ousar atender manifestantes feridos pela polícia iraniana. Sem perspectivas para o futuro e descrente da situação de seu país, ele decide tirar a própria vida. Antes da derradeira ação, no entanto, ele decide se despedir de seus irmãos e da mãe idosa.

Com muita sensibilidade e intimismo, o diretor Asgari entrega uma obra profundamente humana e universal. O que acontece quando alguém é impedido de fazer o que ama e não vê qualquer solução para seus impasse e dor? Nosso protagonista Arash é um médico dedicado e que crê ter o dever moral de cuidar do próximo, independente de suas ações ou orientação política. Quando seu consultório é invadido por jovens manifestantes feridos, ele não hesita em tratar deles. Ocorre que tal conduta é condenada pelas autoridades iranianas – ele é agredido, preso e tem sua licença profissional cassada. Impedido de exercer sua profissão, sem perspectivas profissionais e sem nenhuma fé no futuro, ele vê no suicídio a única saída. Por respeito aos irmãos e à mãe, ele resolve, antes de atentar contra a própria vida, despedir-se de todos. E é aqui que o filme se torna mais tocante e humano, pois são pequenas ações de conforto, afeto e compreensão que começam a modificar a decisão de Arash. Ele avisa aos irmãos que não quer ouvir sermões e, tampouco, qualquer opinião deles sobre sua resolução – eles respeitam o aviso de Arash, mas a própria presença deles começa a tocar o coração do médico. A narrativa é extremamente contida, sem arroubos emocionais, sem música incidental manipuladora, sem qualquer excesso – ao contrário, é uma narrativa silenciosa, com diálogos econômicos, onde as emoções mais profundas emergem de movimentos suaves e palavras simples. Achei um filme triste, mas de incrível doçura, que fala de amor e empatia sem tocar, em momento algum, de forma direta, em qualquer desses temas. Bem ao estilo iraniano, é uma obra que fala sobre o cotidiano e que trata da simplicidade da vida e da profundidade das relações humanas. Gostei bastante da interpretação muito contida de Misagh Zareh que jamais extrapola qualquer limite – a depressão do personagem é evidente pelo olhar e pelos gestos comedidos, tudo muito bem mesurado pelo ator. Eu gostei muito do filme, muito mesmo, apesar da angústia que ele me despertou, mas acho que não é filme para qualquer tipo de público – há que se gostar de ritmo muito lento e histórias bem intimistas. Trigésimo primeiro filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



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