“Vergonha e Dinheiro”, de Visar Morina, 2026
Filme do dia (45/2026) – “Vergonha e Dinheiro”, de Visar Morina, 2026 – Uma família de camponeses de Kosovo é obrigada a abandonar suas terras após o irmão caçula vender as vacas que garantiam seu sustento e fugir para a Alemanha. O casal, suas filhas e a mãe do marido mudam-se para a capital, Pristina, e precisam lutar para sobreviver em uma sociedade competitiva e nada empática.

Trazendo uma crítica contundente ao capitalismo selvagem, à ausência de oportunidades para as pessoas humildes, ao subemprego, à exploração capitalista, ao egoísmo e à competitividade excessiva da sociedade burguesa, o filme retrata a árdua batalha do casal protagonista para sobreviver na capital de Kosovo. Ainda que ajudados minimamente pela irmã e cunhado de Hatixe - a esposa -, o casal sente dificuldade em conseguir empregos pela falta de qualificação. Eles sobrevivem através de subempregos que pagam valores irrisórios e não conseguem moradia pela alta dos aluguéis. Para complicar, Shaban – o marido – é orgulhoso e rejeita inúmeras possibilidades de ajuda por sentir-se envergonhado. A obra, inclusive, equilibra com certa habilidade o orgulho excessivo de Shaban com diversas situações realmente humilhantes, de forma que o espectador se sente dividido entre concordar ou discordar da conduta do protagonista. Dentre as situações constrangedoras, temos a conduta ambígua da irmã e do cunhado que, se por um lado auxiliam os parentes, por outro claramente se aproveitam da presença deles e os exploram. Eu fiquei bastante incomodada com a discrepância entre a opulência de um casal e a miséria do outro. O filme começa muito bem, com uma narrativa sólida, com um desenvolvimento bem fundamentado e que se mantém até dois terços da sua duração. Ocorre que, lá pelo terceiro terço, o roteiro se perde e a gente tem a nítida sensação de que o diretor não sabia como terminar o filme. A partir desse momento, temos cenas dispensáveis, quando não totalmente desconexas, como a cena do casamento e da estátua do Bill Clinton – a gente conseguiu entender a crítica ao capitalismo, coleguinha, não precisava exagerar e chutar o pau da barraca colocando o presidente estadunidense na história! Rs O filme não necessitava de bem sua meia hora final. Não que ele seja ruim, mas ele se alongou demais! A atmosfera da obra, por sua vez, me tocou bastante – há uma submissão intrínseca dos personagens, ainda que Shaban seja orgulhoso. Eu me senti angustiada pelas situações de humilhação vivenciadas pelos personagens, deu vontade de sair do filme cantando a Internacional. Devo destacar o trabalho dos intérpretes Astrit Kabashi como Shaban e Flonja Kodheli como Hatixe – ambos imprimem resiliência e disposição para a luta em seus personagens. O filme foi agraciado com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Sundance (2026). Eu gostei do filme, mas aquele final dele desce quadrado. Recomendo com alguma ressalva. Trigésimo filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



Comentários