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  • hikafigueiredo

“Frango com Ameixas”, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2011

Filme do dia (78/2023) – “Frango com Ameixas”, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2011 – Início do século XX, Irã. O instrumentista Nasser Ali Khan (Mathieu Amalric) é considerado o maior violinista de seu tempo. Após sua esposa Faranguise (Maria de Medeiros), em um acesso de fúria, destruir seu violino, Ali Khan sai em busca de um novo instrumento que satisfaça seu talento. No entanto, sem encontrar um violino à altura do anterior, Ali Khan decide deitar-se para esperar a morte. Ao longo de oito dias, o violinista irá se deparar com memórias e alucinações que explicarão seu sofrimento.





A melhor definição da obra é uma história de amor frustrada e as suas consequências. A narrativa inicia com tentativas seguidas do instrumentista Ali Khan de encontrar um novo violino que esteja à altura de suas exigências. Decepcionado por não encontrar um instrumento, ele prefere a morte e deita-se em sua cama para aguardá-la. Os dias se sucedem e o músico embarca em uma viagem de memórias e alucinações que passam a dar forma à sua história e aos seus sentimentos. O filme é um delicioso “patchwork” de momentos do protagonista ou de pessoas a ele relacionadas. Em uma narrativa completamente não-linear – o tempo cronológico é ignorado e as cenas, como os pensamentos, memórias e alucinações de Ali Khan, sucedem-se de maneira desordenada, indo e voltando no tempo -, a história vai tomando forma e, vagarosamente, tudo começa a fazer sentido. É um filme que beira o fantástico, onde realidade e fantasia se confundem e se complementam, com fortíssima carga onírica e bastante sensorial. Como uma Sherazade moderna, o narrador em off, que acompanha toda a obra, envolve seu público com histórias mirabolantes, por vezes muito reais, por outras bem imaginativas, sempre deixando um gostinho de quero mais no espectador. O ritmo é ágil, até porque são inúmeras cenas desligadas umas das outras, mas que, por vezes, ligam-se a outro trecho antecedente ou bem posterior – eu tive a sensação de uma bola de neve que vai rolando e aumentando a cada volta. A atmosfera é leve e gostosa, não obstante as inúmeras dores retratadas – de amores separados, frustrados e ou não correspondidos. O filme tem diversos alívios cômicos, como, por exemplo, quando Ali Khan decide que deve morrer e passa a conjecturar diferentes tentativas de suicídio, muito embora eles se tornem bem raros na terceira parte do filme, momento em que a própria atmosfera se torna mais pesada e intimista. Além do conteúdo envolvente, o filme tem um formato bastante criativo – os diretores, não só brincam com a cronologia, eles também fazem uso de informações muito posteriores ao protagonista, como o futuro de seus filhos (duas cenas que me fizeram rir); a narrativa ainda usa diversos tipos de técnicas de animação e vários efeitos especiais, o que garante cenas poéticas, críticas, ousadas, e sempre muito criativas. O uso de CGI criou espaços geográficos cheios de charme e fantasia, o que eu adorei. A música pontua toda a obra, o que não é de se estranhar, já que o protagonista é um violinista, seduzindo o espectador a cada nota. O desenho de produção não tem nem o que falar: perfeito!!!! O elenco traz o sempre ótimo Mathieu Amalric – adoro o ator!!! -, em uma excelente caracterização, apesar que, na minha opinião, este papel deveria ter sido interpretado por um ator do Oriente Médio por questão de representatividade. A parte boa é que Amalric é um ator versátil e muito expressivo, premiando-nos com cenas excepcionais; no papel de Irâne, outra intérprete fantástica, Golshifteh Farahani (aí sim!!!! Representatividade!!!) – eu a acho linda, parece uma boneca de louça, e, como Amalric, é uma ótima profissional! Como a esposa de Ali Khan, Faranguisse, Maria de Medeiros, também muito bem no papel. O elenco traz algumas pérolas – Chiara Mastroianni, envolvente e misteriosa como Lili adulta; Jamel Debbouze, outro ator que gosto demais, como Houshang; e a musa absoluta Isabella Rossellini como Parvine. Eu gostei demais do filme, pois ele me despertou tantos sentimentos diferentes e até antagônicos que nem o final tristinho me colocou para baixo depois (eu queria falar mais um monte da obra, mas ia ser um monte de spoiler...). Muito bom, recomendo muito.

PS – Para quem não viu, aconselho outra obra fenomenal da diretora Marjane Satrapi, a animação (não infantil) “Persépolis” (2007).

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