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  • hikafigueiredo

“Garage”, de Lenny Abrahamson, 2007

Filme do dia (146/2023) – “Garage”, de Lenny Abrahamson, 2007 – Em uma pequena cidade do interior da Irlanda, Josie (Pat Shortt) passa seus dias cuidando de um decadente posto de gasolina. Solitário, ele não tem amigos devido a uma evidente deficiência cognitiva, o que não o impede de, a seu modo, ser otimista e feliz. Certo dia, David (Conor Ryan), um adolescente de quinze anos, é contratado para auxiliar Josie no posto. Rapidamente David e Josie tornam-se amigos, mudando perigosamente a concepção de vida de Josie.





Nesse delicadíssimo e ainda mais triste filme, temos, de um lado, um retrato das pequenas cidades interioranas da Irlanda, e, de outro, a história de um homem socialmente inadequado, muito embora cheio de bons sentimentos e intenções. Há, na narrativa, uma clara relação entre a cidade e o protagonista – ambos, pobres e deixados à própria sorte, são a imagem do abandono e da desimportância para o mundo, despertando certa piedade no espectador. Não há esperança para a pequena cidade e para seus moradores, assim como não existe qualquer perspectiva para Josie, um homem com claras e sérias limitações cognitivas. Apesar de tudo, Josie é um homem gentil, tímido, otimista e sempre sorridente. A solidão do personagem, muito antes de doer nele próprio, dói no espectador, que facilmente se solidariza pela doce criatura. O cotidiano de Josie é vazio, suas preocupações são banais e qualquer coisa que faça não mostra importância ou consequências relevantes. No entanto, algo se modifica quando da chegada do adolescente David – pela primeira vez, Josie tem um amigo, alguém que conversa com ele e que o vê, dando uma fração mínima de atenção e afeto. Josie, assim, experimenta o carinho que sempre lhe foi negado e descobre que ser querido aquece a alma, ainda que também signifique fragilizar o indivíduo. A imagem abandonada do inadaptado Josie me despertou profunda piedade e vontade de acolhê-lo e protegê-lo. A narrativa é linear, em ritmo bastante lento. A atmosfera é profundamente melancólica e dolorida. Se, no começo da narrativa, já fiquei com o coração na mão pela vida cinzenta de Josie, no fim já estava quase me debulhando em lágrimas. O mundo é muito injusto e cruel com os inadequados, especialmente quando estes são ingênuos e indefesos – caso de Josie. O filme mostra-se bastante intimista e sensorial – impossível a história de Josie não despertar uma séria de emoções e questionamentos. Formalmente, a obra reflete toda essa carga emocional. A fotografia, muito cinzenta, com cores sem qualquer saturação e pouco contraste, dá uma ideia de tédio, melancolia e tristeza. Os planos abertos e médios aproveitam, com frequência, o ambiente natural – são estradas e trilhas vazias, desprovidas de qualquer movimento ou vida, remetendo-nos ao universo de Josie. A trilha musical é pertinente e não apela para o melodrama. Eu simplesmente AMEI a interpretação de Pat Shortt – Josie é um sujeito desengonçado, com um andar meio trôpego, mas olhos doces e sorriso fácil, uma figura trágica que desperta empatia imediata no espectador. Incrível saber que o ator era, originalmente, um comediante, pois ele arrasou na interpretação dramática. Conor Ryan também está muito bem como o adolescente David, que traz consigo aquela inadequação e timidez típicas da adolescência. Anne-Marie Duff interpreta Carmel, uma personagem desnecessariamente cruel, e John Keogh interpreta Mr. Gallagher. Eu ADOREI o filme, muito embora esteja trazendo um peso no peito até agora. A obra foi agraciada com o prêmio CICAE no Festival de Cannes. É bom demais, sensível demais e triste demais... RECOMENDO MUITO.

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