• hikafigueiredo

"Gemini", de Shinya Tsukamoto, 1999

Filme do dia (261/2021) - "Gemini", de Shinya Tsukamoto, 1999 - Tokyo, 1910. O Dr. Yukio (Masahiro Motoki) é um jovem e renomado médico, recém saído do exército, cujo histórico na guerra lhe rendeu medalhas e notoriedade. Ele é casado com a bela Rin (Ryo), que sofre de amnésia desde que sobreviveu a um terrível incêndio. A vida do casal, na companhia dos pais do médico, é feliz e harmoniosa, mas uma desconhecida sombra do passado retornará para revelar verdades acerca de todos os envolvidos.





Considerado pela crítica como um filme do terror, a obra, para mim, está muito mais próxima de um drama do que de qualquer outro gênero. A história trabalha com a concepção do "duplo" - a existência de um possível ser idêntico a cada indivíduo -, ideia esta encontrada em obras de diversos autores, com destaque para a mais famosa delas, "O Duplo", de Fiódor Dostoiévski. Em "Gemini", o médico Yukio irá se deparar com seu idêntico que, embora igual na forma, traz uma história radicalmente diferente da sua, gerando visões de mundo diametralmente opostas. O que se segue na trama é um interessante entrelaçamento de forma e essência, pois o encontro com seu duplo modificará não apenas a aparência do médico, mas, ainda, sua maneira de conceber o mundo. A história traz uma interessante crítica ao elitismo, à falta de empatia, à imagem que é criada pelas pessoas - raramente condizente com a essência - e à romantização de personalidades - Yukio, a despeito de sua imagem de pessoa generosa e admirável, é, na realidade, um homem hipócrita, preconceituoso, classista e sem qualquer empatia por aqueles que ele considera inferiores: os miseráveis, despojados de riquezas e humilhados pela sociedade. O desenvolvimento da história trará, à tona, verdades sobre todos os personagens, o que será uma lição aos envolvidos. A narrativa é não-linear - por diversas vezes, passado e presente se alternarão na trama, explicando passagens obscuras da história. O ritmo é moderado, mas bem menos lento do que o cinema japonês normalmente se revela. A atmosfera é de estranhamento, incômodo e, a certa altura, chega à tensão, tudo muito bem dosado. Temos, também, uma sensação meio onírica - mas não de um agradável sonho, mas, sim, de um terrível pesadelo. Esteticamente, é um filme com uma concepção bem interessante - remetendo à questão do duplo, o filme é visualmente "dividido" em cores saturadas e cores neutras, assim como a fotografia também é dividida em tons quentes (cenas completamente avermelhadas) e frios (cenas totalmente azuladas). Os enquadramentos são criativos e ousados e ajudam a criar o clima de estranhamento já mencionado. Como é comum no cinema japonês, é um filme econômico na trilha sonora, bastante pontual, e de diálogos espaçados (principalmente no início da obra, modificando quando chegamos no clímax da história). O elenco quase se limita a Masahiro Motoki como Yukio e seu duplo - muitíssimo bem nos papeis, ele consegue estabelecer com sucesso as diferenças entre os dois personagens e jamais temos dúvidas de quem é quem, mesmo quando eles invertem suas imagens sociais; e Ryo como Rin - a atriz tem uma fisionomia profundamente peculiar e causa quase tanto estranhamento quanto a história em si. Esta é uma obra com uma leitura rica e visual bastante arrojado, que me envolveu desde o começo da narrativa. Eu curti e recomendo.

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