• hikafigueiredo

"Hiroshima, Mon Amour", de Alain Resnais, 1959

Filme do dia (359/2020) -"Hiroshima, Mon Amour", de Alain Resnais, 1959 - Participando de um filme sobre a paz em Hiroshima, uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) passa uma tórrida noite de amor com um arquiteto japonês (Eije Okada), oportunidade em que relembra seu primeiro grande amor, um soldado alemão.





Considerado uma das principais obras da Nouvelle Vague francesa e aclamado pela crítica e pelo público, o filme discorre sobre o amor, a enrega, a memória e o esquecimento, sempre de uma forma extremamente poética e intimista. Enquanto tenta rejeitar um maior envolvimento emocional com o arquiteto japonês, a atriz francesa relembra fragmentos de seu primeiro amor, acontecido durante a Segunda Guerra, em uma França ocupada, e tendo como objeto um jovem soldado alemão. Rapidamente, percebemos que a atriz transfere aquele afeto guardado, esquecido, pelo "outro", pelo "estrangeiro", por aquele que "veio de fora", para o arquiteto japonês, igualmente "externo", igualmente "estrangeiro". A relação que se estabelece entre a atriz e o arquiteto está intima e fortemente interligada àquele amor ancestral, que fora julgado desonroso e imoral pelos pares da atriz - afinal, o soldado alemão era um invasor, o que a transformou em colaboracionista e, como tal, execrada publicamente pelos seus. A narrativa é extremamente não-linear, repleta de flahsbacks que vêm acompanhados pela narração da atriz, que conta sobre seu amor passado ao arquiteto. O ritmo é bem lento e a atmosfera sugere certa urgência emocional em tudo aquilo. As primeiras cenas do filme rememoram a tragédia ocorrida naquela cidade e podem ser consideradas uma verdadeira ode pela paz e contra os armamentos nucleares - as cenas são reais e, algumas, bastante impactantes. A obra é muito intimista e fragmentada, construída, tal qual a memória, através de trechos desconexos das reminiscências da atriz, que resiste a entregar-se emocionalmente ao arquiteto, mesmo sabendo ser impossível evitá-lo. A fotografia P&B é suave, poética, abusando de planos fechados, com destaque para a cena de abertura, onde os corpos entrelaçados dos dois amantes parecem amalgamar-se perfeitamente em um único corpo. Destaque, ainda, para a montagem criativa e ousada, que parece brincar com as cenas do passado e do presente, alternando-as. Emmanuelle Riva entrega-se, quase imoralmente, ao papel, é possível sentir as emoções da personagem, de uma forma linda e muito íntima; Eiji Okada, lindo, é um personagem sedutor ao extremo e percebemos a urgência que ele tem da atriz que, em breve, irá embora. Eu, que sempre tive um pé atrás com a Nouvelle Vague, amei a obra, entregando-me por completo a ela. É um filme lindo, lindo. Mais que recomendado, ele é obrigatório.

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