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  • hikafigueiredo

“Hospital”, de Arthur Hiller, 1971

Filme do dia (58/2024) – “Hospital”, de Arthur Hiller, 1971 – Em um hospital de Manhattan, o médico Herbert Bock (George C. Scott) tem ideações suicidas por sofrer problemas familiares e profissionais. Ao conhecer Bárbara (Diana Rigg), filha de um paciente, Bock sente que encontrou algum sentido para sua vida, enquanto seu amado hospital encontra-se prestes a colapsar.





A partir de um roteiro criativo e debochado, que flerta com o nonsense, o filme tece críticas severas ao sistema de saúde estadunidense, escancarando a injusta e desigual sociedade capitalista que se se traveste de perfeição. Mesclando gêneros tão diferentes quanto a comédia de humor ácido, o suspense e o drama, a obra discorre sobre um médico com ideações suicidas que não vê mais sentido na sua vida miserável. Tendo abandonado a esposa após vinte e quatro anos de casamento instável, ignorado pelos filhos que o desprezam, sofrendo de impotência e vendo o hospital onde sempre trabalhou em franca decadência, o Doutor Bock encontra-se próximo ao seu limite. As misteriosas mortes de alguns membros da equipe médica e um litígio do hospital com a comunidade ao entorno parecem ser a gota d’água para o médico, mas, ao conhecer a filha de um paciente, Bock percebe que nem tudo está perdido. Ao longo da narrativa, algumas questões reforçam a crítica social já mencionada – a primeira e mais evidente é a incompetência generalizada dos médicos, enfermeiros, estagiários e equipe administrativa do hospital, todos engessados em suas atividades e incapazes de sair de sua zona de conforto, mesmo que isso signifique um péssimo atendimento e a morte de seus pacientes; a desorganização da unidade hospitalar também salta aos olhos, o que é evidenciada pelos erros recorrentes; há a menção à mercantilização da saúde e a motivação econômica de médicos, que tratam pacientes de maneira desumanizada e mecânica; o litígio entre hospital e comunidade abarca dramas intrínsecos dos países capitalistas, começando pelo processo de gentrificação de áreas degradadas, o qual expulsa os moradores com menor poder aquisitivo de áreas centrais, empurrando-os para a periferia, onde os aparelhos sociais são mais raros e deficientes (na história, moradores de alguns prédios populares, condenados pelo poder público, estão sendo despejados dos imóveis, que darão lugar a novas instalações do hospital em questão, resultando em manifestações e piquetes na porta da unidade). A narrativa é linear, em ritmo intenso e quase caótico, com muitos fatos acontecendo concomitantemente. A atmosfera é curiosamente pessimista, tendo em vista a presença de um humor ácido, debochado e até mesmo nonsense, o último na figura do personagem Edmund – a situação de caos que se instala no hospital instiga ao riso, mas um riso tenso e desconfortável. Formalmente, a obra, como de praxe no cinema da Nova Hollywood, despe-se de uma estética rebuscada, preferindo uma estética mais crua. A fotografia colorida traz cores “desmaiadas”, sem saturação. Não existe uma preocupação com ângulos de câmera, tudo é bem óbvio e pouco criativo. O conteúdo é priorizado em relação à forma e ambos privilegiam a perspectiva autoral, rejeitando o regramento e pasteurização dos grandes estúdios. Com relação às interpretações, temos George C. Scott arrasando como o Dr. Herbert Bock – sua interpretação é intensa, transtornada, sofrida. Como Bárbara Drummond temos Diana Rigg, num trabalho correto, forte, mas que fica um pouco apagado em comparação com a atuação de George C. Scott. O filme foi agraciado com o Oscar (1972), o Globo de Ouro (1972) e o BAFTA (1973), sempre na categoria de Melhor Roteiro; ganhou, ainda, o Prêmio Especial do Juri no Festival de Berlim (1972). Eu gostei demais do filme – aliás, eu curto muito as obras do movimento Nova Hollywood, são sempre muito criativas e poderosas. Segundo o Justwatch, o filme está para alugar no AppleTV.

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