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  • hikafigueiredo

"Identidade", de Rebecca Hall, 2021

Filme do dia (352/2021) - "Identidade", de Rebecca Hall, 2021 - Nova York, década de 20. A afrodescendente Irene (Tessa Thompson), por ter tez clara, transita pelos bairros brancos da cidade sem ser incomodada. Certo dia, ela encontra Clare (Ruth Negga), uma antiga amiga de infância, negra como ela, e descobre, horrorizada, que a amiga - de pele ainda mais clara - vem se passando por uma mulher branca, chegando ao ponto de casar com um homem branco em uma época em que os casamentos inter-raciais sequer eram permitidos. As amigas se reaproximarão, o que trará consequências na vida de ambas.





Produção recente da Netflix, a obra traz uma discussão interessante e producente sobre o racismo e sobre identidade racial. Na história, temos a contraposição entre as duas personagens centrais: de um lado Irene, que, ainda que aproveite sua pele clara para, eventualmente, aventurar-se pelos bairros brancos da cidade, assume-se como mulher negra e constrói sua vida dentro das limitações que o preconceito racial permite; de outro, Clare, que renega sua identidade racial, vivendo a mentira de se passar por mulher branca para fugir do racismo e de tudo o que vem a reboque, a ponto de se casar com um homem branco, rico e, claro, profundamente racista. A contraposição mencionada logo se torna um "jogo": Clare, mesmo aproveitando todos os privilégios de pessoa supostamente branca, sente-se insatisfeita e infeliz por estar longe de suas raízes e daquilo que lhe é familiar e se aproxima de Irene, buscando, na antiga amiga, ecos daquilo que, um dia, lhe fez feliz. Irene, por seu lado, começa a se incomodar com a proximidade da falsa branca dos "seus", principalmente por Clare exercer um estranho fascínio entre os amigos negros - inclusive entre seus filhos e marido. A mensagem do filme, parece-me clara: quem não se posiciona contra algo - no caso, o racismo -, é conivente com aquilo e ajuda a fortalecer e perpetuar a questão. O fato desta conivência vir de alguém que certamente sofreria o preconceito caso se assumisse como negra torna a mensagem ainda mais contundente, mas a crítica vai bem mais além da figura de Clare, alcançando também aqueles personagens negros que valorizam Clare por parecer ser branca: o tal "fascínio" que ela exerce sobre os demais nada mais seria do que uma rejeição de todos à própria cor. O filme aponta a importância de se assumir a própria identidade racial, orgulhando-se dela, o que seria o primeiro passo para lutar contra o racismo. A obra discorre sobre seus temas de uma maneira sutil, sem um tom panfletário ou raivoso, o que lega certa delicadeza ao filme. Só uma questão me ocorreu - a obra é baseada no romance "Passing" (título original do filme), da escritora negra Nella Larsen, o que certamente lhe concedeu lugar de fala para tratar do assunto; no entanto, a direção do filme ficou por conta de Rebecca Hall, atriz (e agora diretora) branca. Para mim, mulher branca, achei o tratamento dado ao filme corretíssimo, mas, me pergunto se alguém que sofre na pele o racismo, concorda com a forma como a diretora conduziu o filme, já que, embora baseado num livro, discute-se uma questão alheia à experiência da diretora. Em outras palavras, Rebecca Hall trabalha com a visão "do outro", da pessoa negra que vivencia o racismo no dia a dia, e o fato de não ter essa vivência poderia influenciar na direção. Mas isso é algo que me ocorreu e, de repente, eu estou só viajando e a condução da narrativa está ideal, sei lá, precisarei saber sobre isso de alguém que tenha outra realidade que não a minha. A narrativa é linear, mas traz uma fluidez temporal que eu achei um pouco estranha - há grandes elipses de tempo que não são anunciadas, o que me trouxe certo estranhamento, ainda que não eu ache que tenha sido mal feito, pelo contrário, o efeito foi interessante. O ritmo é moderado e a atmosfera é de apreensão - eu fiquei tensa boa parte do filme e acho que a personagem Irene compartilhou dessa mesma apreensão com relação à presença de Clare. Falando de questões técnicas, o filme conta com uma fotografia P&B suave, aproveitando muito bem as infinitas tonalidades de cinza - o que nos ajuda a lembrar que existem um sem número de cores de pele e que a identidade racial vai bem além de só a cor da tez de alguém. A obra trabalha muito bem os posicionamentos de câmera e a escolha de planos, privilegiando planos detalhes que vêm, sempre, repletos de intenções e tensões. A trilha sonora, lógico, aproveita muito bem o tipo de música que era produzida pelos negros na época e se mostra irretocável (há inúmeras cenas de festas, regadas a muita música negra). A direção de arte de época é caprichadíssima e a caracterização dos personagens, exemplar. No elenco, Ruth Negga como a falsa branca Clare - a atriz está maravilhosa como a conflituosa personagem que não sabe bem o que quer, se aproveita o privilégio, se assume-se como negra, se rejeita ou acolhe os seus; Tessa Thompson interpreta Irene e traz um trabalho excepcional, pois, como a amiga Clare, tem sentimentos conflitantes em relação à questão - e a atriz mostra com muita delicadeza esse conflito interno da personagem; André Holland interpreta o personagem Brian, marido de Irene, outro a trazer contradições pois, do mesmo jeito que tenta alertar os filhos acerca do racismo, mostra-se embevecido de ter a quase branca Clare entre os seus; Alexander Skarsgard interpreta John, o marido branco e racista de Clare, num trabalho correto. Eu gostei bastante do filme e recomendo.

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