• hikafigueiredo

"Janela Indiscreta", de Alfred Hitchcock, 1954

Filme do dia (25/2022) - "Janela Indiscreta", de Alfred Hitchcock, 1954 - Preso em casa por estar com uma perna quebrada, o fotógrafo L. B. Jeffries (James Stewart) entendia-se e dribla seu fastio observando a vida da vizinhança através das janelas dos muitos apartamentos. Uma, em especial, lhe chama a atenção, e o fotógrafo passa a desconfiar que seu vizinho esconde alguma coisa. Com a ajuda de sua namorada Lisa (Grace Kelly) e da enfermeira Stella (Thelma Ritter), ele passa a investigar, sem poder, no entanto, sair de seu apartamento.





Dando continuidade à "maratona Hitchcock", chegamos naquela que é uma de suas mais célebres obras e, particularmente, a minha preferida do diretor. O filme é, provavelmente, a mais voyeurística obra cinematográfica já realizada, pois baseia-se, quase exclusivamente, no ato de olhar. Tudo, na narrativa, remete-nos ao olhar - da profissão do protagonista à maior parte das cenas que nada mais são do que o ponto de vista do personagem Jeffries, que observa, com evidente fascínio, o que acontece nas janelas defronte sua própria janela, conduta da qual somos cúmplices. Em última instância, a obra é uma representação do próprio cinema - o que mais são, os espectadores, do que assumidos voyeurs, que observam, encantados, a tela do cinema? Podemos, inclusive, assumir que o filme é uma homenagem ao cinema e seu inegável ato de olhar. A história acompanha o entediado personagem Jeffries, renomado fotógrafo-jornalista, acostumado a aventuras, preso em casa em decorrência de uma perna quebrada. Ele passa seus dias observando seus vizinhos, acompanhando, incógnito suas vidas. Ao mesmo tempo em que seu olhar o leva "para fora", ele evita a derradeira conversa com sua namorada Lisa, que intenta se casar com o fotógrafo, evitando assim, o "olhar para dentro". A narrativa acontece, assim, em duas linhas - o que ocorre externamente, nas janelas vizinhas, e internamente, nas discussões entre Jeffries e Lisa acerca de seu relacionamento. As muitas historietas paralelas referentes aos vizinhos são deliciosas e divertidas. Diferentemente do que senti em "Quando Fala o Coração"(1945), aqui o romance encontra-se ultra bem dosado, de forma que não interfere no suspense - ao contrário, o potencializa, a partir do envolvimento de Lisa nas "investigações" perpetradas pelo protagonista. A narrativa é linear, em ritmo moderado, mas crescente - as cenas finais chegam a ser eletrizantes, fazendo o espectador quase desmaiar pela suspensão excessiva de sua respiração! A atmosfera inicia-se leve, suave, mas ganha, minuto a minuto, mais tensão. Os diálogos são rápidos, muitas vezes com humor marcado, num delicioso "bate-bola". Tecnicamente, o filme é irretocável - a fotografia colorida é bem saturada e os contrastes claro-escuro são muito bem utilizados, em especial nas cenas de maior suspense; usa-se, com frequência, o ponto de vista do personagem principal, isto é, a vista das janelas é exatamente aquilo que o protagonista vê; os sons do filme são, quase em sua totalidade, diegéticos, retratando os sons da vizinhança (inclusive os muitos trechos de música); o elenco, sublime, não poderia ser mais acertado - James Stewart está soberbo como o fotógrafo aborrecido e Grace Kelly impecável como a elegante namorada Lisa; Thelma Ritter não nega sua veia cômica como a enfermeira Stella; completando o elenco, Wendell Corey como tenente Doyle, Raymond Burr como Sr. Thorwald e Judith Evelyn como a "senhorita Lonelyheart". O filme concorreu ao Oscar (1955) em quatro categorias - Diretor, Roteiro Adaptado, Fotografia e Mixagem de Som -, bem como ao Prêmio BAFTA na categoria de Melhor Filme. Essa obra é só perfeita, não há como melhorá-la!!! Não é recomendável, é obrigatória para qualquer amante de cinema!!!!

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