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  • hikafigueiredo

“Jogo Cego”, de Karel Reisz, 1978

Filme do dia (62/2024) – “Jogo Cego”, de Karel Reisz, 1978 – John Converse (Michael Moriarty) é um desiludido correspondente de guerra no Vietnã que, indignado com os rumos do conflito e os desmandos das forças militares estadunidenses, deixa cair por terra qualquer filtro moral e resolve traficar dois quilos de heroína de Saigon para São Francisco. Para tanto, ele convence seu amigo, o soldado Ray Hicks (Nick Nolte), a fazer o transporte da droga para os EUA. Quando pisa no país, no entanto, Hicks percebe que está prestes a cair em uma armadilha e precisa fugir de seus perseguidores, levando consigo Marge (Tuesday Weld), esposa de John.





Amargo e contundente, o filme, mais um legítimo representante do cinema autoral do movimento de vanguarda Nova Hollywood, entrega uma história onde não existem nem heróis, nem detentores de qualquer preceito ético ou moral. Com personagens complexos e contraditórios e situações que revelam uma verdadeira putrefação do sistema, temos um jogo de gato e rato onde todos envolvidos estão intimamente ligados à criminalidade, movidos por desilusão, revolta, ganância e orgulho. Com exceção da personagem Marge, que entra no esquema de maneira não intencional, todos os demais personagens foram despidos de quaisquer escrúpulos, muito embora a lealdade que o protagonista Hicks apresente para com seus parceiros de empreitada e fuga desesperada, a demonstrar a complexidade do personagem. A narrativa, linear e em ritmo ágil e constante, revela uma realidade amarga, seja em meio ao conflito armado de uma guerra em país estrangeiro, seja no solo pátrio dos personagens – em ambos, corrupção, ganância e interesses pessoais movimentam as peças de um jogo sujo e sem ganhadores. A obra, como a maioria dos filmes do movimento, é bastante anticlimática, isto é, não segue um aumento de tom que atinge um momento de clímax, o que inclui o desfecho trágico que abarca, de uma forma ou de outra, todos os envolvidos – confesso que a forma como se chega a esse desfecho me incomodou um pouco, mas creio que foi absolutamente intencional, uma vez que transgredir e incomodar sempre foram a base do movimento Nova Hollywood. A atmosfera é de tensão, angústia e, claro, profunda desilusão. Confesso que me senti tocada pela personagem Marge, ao mesmo tempo um joguete e uma força, a única que ainda mostra ter alguns princípios intactos. Mas o filme é do personagem Hicks, é ele quem mobiliza verdadeiramente a história. Formalmente, destaco a fotografia em tons amarelados, que me transmitiu uma sensação de calor e agonia, e o ritmo muito constante, que não deu trégua um minuto sequer. Destaque também merece a trilha sonora com músicas da época, em especial as músicas do grupo Creedence Clearwater Revival, dentre as quais aquela que dá nome ao título original do filme (“Who’ll Stop the Rain”), um verdadeiro grito de revolta contra a Guerra do Vietnã. Quanto ao elenco, temos um Nick Nolte fabuloso (e eu nem sabia que ele poderia ser tão bom ator, fiquei realmente surpresa), carregando, nas costas, o filme, na figura do controverso Ray Hicks, tão errado e tão humano, tão cheio de intenções muito contraditórias, ao mesmo tempo violento e sanguinário, leal e companheiro – grande atuação; Gostei também do trabalho de Michael Moriarty – o personagem é simplesmente odioso, ele é o estopim de todos os problemas, e, movido por questões absolutamente pessoais, ele envolve os demais num esquema perigoso e pessimamente desenvolvido -, bastante sólido e convincente, principalmente por sua intencional inexpressividade, a mostrar sua desilusão e morte interior; Tuesday Weld, por sua vez, cumpre muito bem seu papel como Marge, ainda que seu desempenho fique bastante apagado frente ao trabalho de seus companheiros de elenco, bem superiores. O filme é ótimo, muitíssimo bem conduzido, ainda que não tenha sido o meu predileto do box (mais pelo tema do que por qualquer outra coisa). Segundo o Justwatch, é possível assistir ao filme gratuitamente com anúncios no Tubi TV (???) ou comprá-lo para download no Vudu (???) – não está disponível nas plataformas mais tradicionais.

 

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1 comentario


Ademir Richotti
Ademir Richotti
há 3 dias

Descobri o seu blog recentemente e estou adorando, principalmente suas resenhas sobre os filmes da Nova Hollywood.Obrigado pelas dicas!

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