• hikafigueiredo

"Limite", de Mário Peixoto, 1931

Filme do dia (197/2020) - "Limite", de Mário Peixoto, 1931 - Em um pequeno bote, no meio do mar, três náufragos aguardam o inevitável. Enquanto suportam o peso de suas existências, os três passageiros daquele barco relembram seu passado recente.





Considerado o melhor filme brasileiro de todos os tempos por praticamente todos os críticos, o filme é, indiscutivelmente, uma obra prima. O filme consegue exprimir, como poucos, a angústia, a exasperação, o limite extremo a que uma pessoa pode chegar quando não há mais qualquer esperança para sua situação. A obra é muito sensorial, conseguindo transmitir todo esse sentimento de vazio vivenciado pelos três personagens sem nomes. É uma obra sufocante, principalmente nas suas partes iniciais e finais, quando a narrativa se concentra no pequeno bote em que os personagens se encontram esgotados e em trapos. O roteiro inicia mostrando o tempo presente - o barco à deriva e seus três ocupantes. A angústia é palpável e o evidente silêncio é sepulcral. Em seguida, temos flashes do passado recente de cada um dos personagens, oportunidade em que percebemos que todos já se encontravam em situações desconfortáveis ou de sofrimento. Ao final do roteiro, voltamos para o bote para aguardar o fim inexorável. O ritmo é prioritariamente muito lento, com alguns poucos trechos de aceleração. É uma obra profundamente autoral, com longas cenas de contemplação (ou, melhor, de ensimesmamento) e possibilita, claro, algumas boas interpretações. A fotografia P&B é bastante contrastada, mas o que mais chama a atenção são os planos impressionantemente sofisticados, originais e variados. Há uma profusão de planos de detalhes, alternados com planos gerais, inúmeros plongées e contra-plongées, situações de câmera na mão proporcionando movimento à cena, planos repetidos á exaustão para reforçar uma ideia ou sensação, sobreposição de imagens e até o uso de negativos - não há sequer um plano óbvio ao longo da obra, todos são diferentes e despertam sensações inusitadas no espectador. Poucas vezes eu vi uma trilha sonora adequar-se tão bem às imagens de um filme - a música que toca no início e no fim, além de maravilhosa, desperta sensações inacreditáveis no espectador, nenhuma poderia compor melhor as cenas do barco. As interpretações são fluídas, mas o destaque absoluto fica por conta de Olga Breno como a "mulher número 1" - ela é de uma expressividade incrível, seu olhar pesado, sua linguagem corporal alquebrada é dolorosa de ver. O filme é realmente incrível, justifica seu sucesso perante a crítica, mas é evidente que o espectador precisa mergulhar na obra para aproveitá-la em sua totalidade. Lembre-se, ainda, que é um filme mudo de 1931, há que se estar familiarizado com a linguagem daquela época (quem está acostumado apenas com blockbuster não vai curtir, desencana). Recomendo muitíssimo para quem curte cinema autoral.

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