• hikafigueiredo

"Longa Jornada Noite Adentro", de Sidney Lumet, 1962

Filme do dia (258/2021) - "Longa Jornada Noite Adentro", de Sidney Lumet, 1962 - Ao longo de um dia, a família Tyrone ficará frente a frente com todos os seus problemas pessoais e familiares - a mãe Mary (Katharine Hepburn) em plena recaída de seu vício em drogas; o pai James (Ralph Richardson), um ator entrado em anos, frustrado com sua carreira em declínio; o filho Jammie (Jason Robards) mergulhado no alcoolismo; e o filho Edmund (Dean Stockwell) tendo de enfrentar uma doença fatal.





Baseado na peça teatral autobiográfica de Eugene O'Neill, o filme é um retrato sofrido e dramático de uma família disfuncional que, pouco a pouco, fragmenta-se em discussões e discórdias cada vez mais contundentes. Justamente por todos vivenciarem aquele ambiente nocivo, cada personagem transforma sua dor e frustrações em algum elemento negativo a se somar naquela realidade caótica, criando uma verdadeira bola de neve de sofrimento, desavença e confronto. O formato da obra não nega sua origem teatral - é possível perceber cada marcação de cena, o momento de entrada e saída "do palco" dos diversos personagens, apesar do empenho de Lumet em tirar-lhe essa característica através de movimentos de câmera e mudanças de planos repletos de função dramática. O texto, carregado, visceral, é cirúrgico em perscrutar os traumas familiares - os diálogos chegam a ser, em determinados momentos, extremamente cruéis, com verdadeiras saraivadas de acusações e confissões das mais dolorosas para todos os envolvidos. A narrativa é linear em ritmo bem marcado e quase constante. A atmosfera é de desalento, rancor e desespero, ainda que eu não tenha sentido isso como "participante" - não achei a obra muito sensorial, ela não chegou a me envolver emocionalmente, não me tirou da posição de espectadora para vivenciar aqueles dramas, eu os vi "de fora". Além do texto excelente, o filme mostra inúmeras qualidades formais. Lumet busca, nas suas escolhas, extrair o máximo de dramaticidade - assim, a mudança de um plano médio para um súbito plano detalhe tem muitas mais intenções do que apenas uma modificação de "olhar". A fotografia é de um P&B muito contrastado, que ressalta cada detalhe de cena, em especial nos closes dos personagens. A câmera não permanece fixa por muito tempo: inúmeras são os planos em que a câmera move-se lentamente para cima ou para baixo, criando plongées e contra-plongées, ou, ainda, em travellings verticais (como já disse, vi nisso uma tentativa do diretor de se afastar do formato teatral, tonando a história mais "cinematográfica"). A trilha sonora é acompanhada, em momentos pontuais, por um piano nervoso, pesado, quase irritante. O elenco, poderoso, é encabeçado pela diva Katharine Hepburn - sua personagem Mary vai, gradualmente, esfacelando-se em cena; ela inicia bem e sorridente, cabelo impecável e, em pouco tempo, essa imagem de equilíbrio vai derretendo, dando lugar a um arremedo de gente, uma pessoa em total ruína. O trabalho da atriz, magnífico - e algum dia ela não foi magnífica? -, rendeu-lhe uma das suas doze indicações ao Oscar; outro que se despedaça em cena é o personagem Jammie, interpretado por Jason Robards - ele também passa do equilíbrio quando sóbrio, para um estado de completa alteração, quase sadismo em seu "sincericídio", quando bêbado, e o ator faz essa mudança com excelência; Ralph Richardson interpreta o patriarca James, um ator teatral com carreira em declínio, frustrado e coberto de mágoas de todos ao seu redor, não poupando frases duras e cruéis para seus familiares; Dean Stockwell interpreta o filho caçula, Edmund - o personagem, muito embora seja um dos mais agredidos pelos demais, mostra-se o menos instável do quarteto; o trabalho do ator é bom, mas é o personagem menos "exigido". Achei a obra ótima, um texto primoroso, mas, devo admitir que a achei um pouco longa - 2 horas e 50 minutos, sendo a última meia hora meio sofrida para me manter acordada, até porque são quase 3 horas de discussão atrás de discussão e isso me exauriu um pouco. Mas acho sim que valeu a pena - o filme, inclusive, foi um dos indicados à Palma de Ouro em Cannes naquele ano. Curti e recomendo.

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