“Mais Um Dia”, de Jeanne Herry, 2026
Filme do dia (23/2026) – “Mais Um Dia”, de Jeanne Herry, 2026 – Garance (Adèle Exarchopoulos) é uma jovem e talentosa atriz que, diante das dificuldades enfrentadas na carreira, passa a abusar das bebidas alcóolicas, recaindo, paulatinamente, no alcoolismo.

O drama francês inicia-se retratando os percalços da protagonista na carreira dramática. Integrante de uma conceituada companhia teatral, Garance equilibra sua atividade profissional com uma tumultuada vida social. Ela se frustra quando a peça em que estava atuando é encerrada e ela é transferida para uma obra infantil. Ela encontra apoio em um grupo de amigos, os quais a integram numa intensa jornada social por festas e bares. Ocorre que Garance, progressivamente, passa a consumir mais e mais bebidas alcóolicas em suas noitadas e, imperceptivelmente, passa a usar o álcool como esteio emocional para suas dores e frustrações. Assumidamente alcoólatra, a jovem atriz acaba gerando problemas profissionais e pessoais para si própria, adentrando em um perigoso círculo vicioso. A obra é bastante cuidadosa quanto à representação do processo da personagem rumo ao alcoolismo – a passagem da protagonista do mero consumo esporádico de álcool para o completo vício é feito vagarosamente e sem “saltos”, bem como os problemas que se sucedem em decorrência do abuso. O filme, como representação do vício, é bastante competente, muito embora ele deixe transparecer um claro propósito de alerta, o que eu, particularmente, acho dispensável. A certa altura, a narrativa pesa para o didático e as cenas excessivamente explicativas da médica que atende a personagem ganham contornos professorais que, confesso, não me agradaram. Apesar deste porém, o filme se sustenta bastante bem, em parte pela direção competente da diretora Jeanny Herry e muito pelas interpretações intensas das atrizes Adèle Exarchopoulos e Sara Giraudeau. Neste sentido, Adèle oferece uma atuação segura, sem qualquer histrionismo – não espere cenas exageradas, da personagem agindo completamente alheia à realidade ou fazendo alguma barbaridade; não, a interpretação é contida e sutil, bem diferente do trabalho da atriz em começo de carreira, quando em “Azul é a Cor Mais Quente” (2013). Adèle é, certamente, a maior virtude do filme. Quanto a Sara Giraudeau, a qual interpreta Pauline, a namorada de Garrance, ela traz suavidade e compreensão para a personagem. Adorei a proeminência feminina no elenco, principalmente porque quase não há menção a homens nos diálogos (que vitória!). Por outro lado, admito que detestei a trilha musical eletrônica, com uso de algo que me pareceu sintetizadores e que, particularmente, achei totalmente descolado da atmosfera do filme. Falando em atmosfera, a obra não é sensorial, ou seja, a “compreensão” da narrativa se dá em uma perspectiva racional e não emocional – diria até que é um filme meio “frio”, onde as questões são muito mais factuais que sensoriais. No geral, eu fiquei satisfeita com o filme e o recomendo, mas sem grande alarde, caso chegue ao cinema ou nos streamings. Oitavo filme visto na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo.



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