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“O Julgamento de Hein”, de Kai Stänicke, 2026

hikafigueiredo
há 1 minuto
2 min de leitura

Filme do dia (25/2026) – “O Julgamento de Hein”, de Kai Stänicke, 2026.  - Em uma indefinida época passada, Hein (Paul Boche) retorna à sua diminuta e remota ilha natal no Mar do Norte após 14 anos de exílio. Ao chegar ao pequeno vilarejo de sua infância, os moradores locais não o reconhecem. Como sua irmã era muito pequena quando partiu e com sua mãe tomada por uma demência crescente, Hein não encontra ninguém que confirme sua identidade. Desconfiados acerca das intenções do estranho recém-chegado, os habitantes resolvem fazer um julgamento para definir se aquele intruso é verdadeiramente quem diz ser.


 

Extasiada!!!! Eu terminei de assistir a essa obra extasiada!!!! O sensível drama alemão acompanha a chegada de Hein à sua terra natal, o repúdio dos moradores de sua vila à sua presença, o empenho do protagonista em provar sua identidade e o real motivo de seu exílio. Os temas transversos à obra são a memória, a hipocrisia da sociedade, o apagamento de lembranças que vão de encontro com nossas verdades e valores, o julgamento social, a coragem e o medo de assumir quem se é, as mentiras convenientes. Hein carrega consigo lembranças embaralhadas de sua infância, que não se coadunam às memórias dos demais moradores. Ele leva consigo, ainda, um segredo considerado vergonhoso para aquela sociedade. Disposto a comprovar que é o Hein que partira há quatorze anos, ele se submete ao julgamento daquela comunidade e percebe que terá de manipular a todos para conseguir ser aceito. Com uma narrativa enxuta, precisa e circunspecta, que não possui qualquer elemento desnecessário, a obra é profundamente envolvente e sensorial. Observamos aquele grupo de pessoas e, paulatinamente, percebemos como as relações entre eles estão imbuídas de hipocrisia, mentiras e julgamentos morais. O protagonista, único a perceber a natureza daquela gente – justamente por olhá-la “de fora” -, possui motivos para seu retorno após tanto tempo, o que rapidamente intuímos (sem spoilers). Como em um quebra-cabeça, a narrativa vai formando, pouco a pouco, um panorama daquela sociedade e as razões de Hein para voltar. A obra traça um diálogo poderosíssimo com dois outros filmes: “A Festa de Babette” (1987) e “Dogville” (2003) - ambos pelos julgamento moral e hipocrisia das relações, e o último também pela construção formal do espaço ficcional (como no filme de Lars Von Trier, as casas não são realmente casas; enquanto em Dogville a indicação das casas é feita por mera marcação no chão, aqui são apenas fachadas, sem telhados ou divisões internas, a remeter ao teor falso daquelas relações e memórias). A câmera, sempre fixa, alterna planos fechados com outros muito abertos – as cenas em plongée absoluto (posição de câmera que se coloca a noventa graus do solo, virada para baixo) novamente me lembraram “Dogville”. Gostei também das interpretações do trio principal: Paul Boche como Hein, Emilia Schüle como Greta e Philip Froissant como Friedemann trazem severidade aos personagens e, como todo bom filme alemão, não há reações emocionais exageradas, tudo é muito sutil e discreto. Queria falar muito mais da obra, mas vou acabar caindo em spoilers, então vou me limitar a dizer que foi uma experiência sensacional!!! O filme é incrível, mesmo!!!! Aconselho muito, se tiverem chance não deixem de ver!!! Décimo filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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