• hikafigueiredo

"Marighella", de Wagner Moura, 2019

Filme do dia (232/2021) - "Marighella", de Wagner Moura, 2019 - Durante a ditadura militar iniciada com o Golpe de 1964, Carlos Marighella (Seu Jorge) une-se a um grupo revolucionário que luta contra a opressão do governo, buscando alternativas ao regime de direita apoiado pelo governo norte-americano.





Boicotado de todas as formas possíveis pela atual gestão da Ancine, o filme biográfico de Marighella chega ao público com dois anos de atraso. Compreensível: a última coisa que o atual governo - firmemente alinhado com a (extrema) direita - quer é que figuras vinculadas à esquerda ganhem maior notoriedade, sejam alçadas a heróis e possam servir de exemplo ou inspiração para um povo que começa acordar e perceber que a atual situação é, a cada dia, mais insustentável. E, nesse sentido, a posição do diretor Wagner Moura é induvidosa - ele se encontra, assumidamente, na trincheira oposta ao do atual governo. Neste panorama, a obra surge como um grito de revolta frente aos absurdos passados e presentes, abraça a causa e segue, intrépida, em direção à glória daqueles que lutaram pela liberdade e democracia até seu último suspiro - tal qual o protagonista. A narrativa acompanha Marighella e seus companheiros a partir do momento em que entram na clandestinidade e assumem que a única maneira de lutar por sua causa é partindo para a ação - em outras palavras, batendo de frente contra o governo militar e adotando a luta armada. A narrativa é predominantemente linear, em ritmo muito intenso e atmosfera tensa. A câmera é nervosa e não são poucos os planos-sequência que acompanham as ações do grupo, inclusive a cena de abertura, de efeito magnífico. Nas entrelinhas da obra, a presença da máxima "não confunda a reação do oprimido com a ação do opressor" - ou seja, em momento algum a ação dos grupos de resistência pode ser equiparada à conduta virulenta do governo, que prendia seus opositores sem o devido processo legal, torturava e matava sem piedade - e o que não falta na obra são cenas desta violência institucionalizada pelas forças policiais. O roteiro desenvolve-se bem, é amarrado, mas não deixa dúvida quanto ao seu posicionamento ideológico. A obra dialoga lindamente com outras tantas, como "Lamarca" (1994), "O Que é Isso, Companheiro" (1997) e "Batismo de Sangue" (2006). O elenco é encabeçado por Seu Jorge, em uma interpretação inspiradíssima de Carlos Marighella; Bruno Gagliasso está maravilhosamente odioso como o delegado Lúcio; gostei bastante das interpretações de Humberto Carrão como Humberto, Luiz Carlos Vasconcelos como Almir, Herson Capri como Jorge Salles e Adriana Esteves como Clara. O filme é forte, visceral, foi visivelmente imaginado e executado pela alma do diretor. Destaque para a cena final, onde o grupo de revolucionários canta, com gana, o hino nacional - é perceptível que ali tinha muito mais em jogo do apenas os personagens do filme. Obra necessária e obrigatória.

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