• hikafigueiredo

"Marte Um", de Gabriel Martins, 2022

Filme do dia (120/2022) - "Marte Um", de Gabriel Martins, 2022 - Contagem, MG, 2018. Em um momento em que o país elegeu um representante ligado à extrema-direita, uma família negra luta para continuar sua vida, abraçando seus sonhos e agarrando-se às possibilidades que se apresentam.





Talvez por ter ido com muita expectativa, a obra não me encantou como eu esperava, muito embora reconheça várias virtudes no filme. A história foca no cotidiano de uma família classe média baixa que sobrevive com certa dificuldade à crise que se instala no país após a eleição de 2018. Não acontece exatamente nenhum acontecimento extraordinário que impulsiona a narrativa - trata-se, na realidade, de um sequência de ocorrências cotidianas, mais ou menos complexas, que acabam por gerar pequenas crises, discussões ou aproximações entre os membros daquela família. Explora-se um pouquinho de tudo: há espaço para discutir orientação sexual, relações familiares, abuso de substâncias, frustrações, sonhos compartilhados ou não, condutas impostas, crise nacional, ideologias. Fiquei com uma certa sensação de que se fala de tudo - muitos assuntos interessantes -, mas nada com real profundidade. Acredito que talvez tivesse me encantado mais com a obra se ela diminuísse o leque de temas e aprofundasse a discussão. Algo que me agradou em demasia foi a opção por retratar uma família negra sem que o assunto racismo fosse o grande tema - em outras palavras, não faria diferença se os personagens fossem brancos ou orientais, então, por quê não negros? Chega de só brancos se verem representados em cena, chega dos negros só se verem representados pontualmente, quando os personagens, por exigência, têm de ser negros. A narrativa é linear, em um ritmo bastante moderado e a atmosfera é prioritariamente leve, com alguns momentos de maior tensão entre os personagens, mas que praticamente não alcançam o espectador. A história flui de maneira agradável, bem encadeada, sem pulos ou reviravoltas esdrúxulas, como a vida é na sua normalidade. O filme consegue retratar, com cuidado e afetuosidade, uma família comum que, apesar de atritos existentes entre seus membros, é coesa e amorosa, de forma que cada um de seus membros é acolhido e protegido pelos demais. A fotografia da obra é caprichada, sem parecer fotografia de cinema publicitário, e gostei de algumas soluções encontradas, como a descida da ribanceira de bicicleta. A trilha sonora se mostrou adequada, mas sem grande criatividade quanto à sua função na obra. O elenco, bárbaro, contou com Rejane Faria como a mãe, Carlos Francisco como o pai, Camilla Damião como a filha Eunice e Cícero Lucas como Deivinho. Deles, gostei mais da interpretação das mulheres: Rejane Faria faz um ótimo trabalho, em especial nas partes em que expõe seu abalo emocional após um acontecimento (sem spoiler), de forma que concluímos que ela está tendo ataques de ansiedade e pânico sem que isso seja mencionado a qualquer tempo. Camilla Damião, além de lindíssima, também mostra-se muito bem como Eunice, vivendo um momento de transição da personagem, com todas as crises que isso significa. A obra está muito cotada para ser a representante do Brasil no Oscar, apesar de não achar que era caso para tanto. Acho que por terem elogiado muito o filme para mim, eu esperava mais. Não é ruim, mas senti falta de profundidade, inclusive emocional. Em todo caso, sempre gosto de incentivar o cinema nacional, então, acho que pode ser uma opção razoável.

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