• hikafigueiredo

"Matadouro 5", de George Roy Hill, 1972

Filme do dia (141/2021) - "Matadouro 5", de George Roy Hill, 1972 - Billy Pilgrim (Michael Sacks) é um ex-combatente da Segunda Guerra, que, abduzido por extraterrestres, vive a estranha condição de estar "solto no tempo", vivendo, simultaneamente, no passado, presente e futuro.





Gente... que filme esquisito. Baseado no livro de Kurt Vonnegut, a obra envereda por conceitos metafísicos mais profundos do que sugere a narrativa completamente aleatória. Na história, o ex-combatente da Segunda Guerra, Billy Pilgrim, é abduzido por alienígenas do planeta Tralfamador e, com isso, aprende com seus algozes a vivenciar o tempo de uma maneira diferente à dos terráqueos - segundo a narrativa, o tempo seria um dimensão contínua, isto é, tudo aconteceria ao mesmo tempo continuamente. Sob essa lógica, Billy Pilgrim estaria "solto no tempo", vivenciando "tudo ao mesmo tempo agora", de uma forma completamente aleatória e sem qualquer sentido. Assim, Billy saberia, de antemão, os acontecimentos "futuros", uma vez que a ideia de passado, presente e futuro seria uma mera convenção humana, já que tudo acontece simultaneamente e constantemente. O tempo, aqui, é imutável - Billy não tem como modificar qualquer acontecimento, está tudo posto e, por mais que ele vivencie quinhentas vezes a mesma experiência, será sempre a mesma progressão de ocorrências, um eterno "Groundhog Day" (ou, "Dia da Marmota", de "O Feitiço do Tempo", de 1993) sem possibilidade, no entanto, de qualquer mudança. O fato de nada poder ser alterado faz com que a ideia contida no filme seja extremamente deprimente e niilista - não existe qualquer razão de ser em nada - o que me causou profundo incômodo. Como é evidente, a narrativa é completamente não-linear, diria até aleatória - não consigo imaginar como foi editar esse filme, o montador deve ter jogado as cenas para cima e do jeito que caiu, ficou, isto é, não espere muita lógica na obra, o ordenamento terá de ser feito pelo próprio espectador, a posteriori. O ritmo também é meio aleatório - temos cenas mais lentas, alternadas com outras mais vibrantes, sem qualquer escalonamento. A fotografia, como é comum nos filmes daquela década (nunca soube porquê) é meio "apagada", "lavada", sem saturação e contraste. Michael Sacks interpreta Billy Pilgrim como um eterno observador - como ele sabe de tudo que "vai acontecer", ele parece não se envolver com nada, não se emocionar com nada, tudo é vazio e desprovido de sentido: de novo o niilismo, reforçado pela interpretação do ator, pelo olhar perdido do personagem Pilgrim. Destaque para as cenas do "futuro", com Pilgrim preso em uma espécie de zoológico interplanetário com a "mulher de seus sonhos", aparentemente o melhor "momento" da sua "sopa de tempo". A obra é 100% metafísica e dá pano para manga para discussões filosóficas de todas as espécies, desde a natureza do tempo, até o sentido da vida. Não é um filme muito fácil porque o ordenamento e os significados têm de ser "colocados" pelo espectador, após o fim da obra. Não acho que seja filme para qualquer público, pois exige bastante trabalho mental, dificultando o entendimento. Em todo caso, quem gosta de quebra-cabeças, vai se divertir montando alguma cronologia. É um filme esquisito, sem dúvidas.

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