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  • hikafigueiredo

"Meu Passado Me Condena", de Basil Dearden, 1961

Filme do dia (157/2022) - "Meu Passado Me Condena", de Basil Dearden, 1961 - Melville Farr (Dirk Bogarde) é um célebre e respeitado advogado em carreira ascendente. Ele mantém um casamento de fachada com Laura (Sylvia Syms) para esconder sua homossexualidade numa época em que sua orientação sexual era considerada crime. Quando seu ex-amante Jack Barrett se suicida, Farr passará a investigar uma criminosa rede de chantagem de homossexuais que colocará em risco não apenas seu casamento, mas, também, sua carreira.




Um dos primeiro filmes ingleses a falar abertamente sobre a homossexualidade, a obra expõe o preconceito existente na época - década de 60 - contra a população "queer", a qual era tratada como criminosa e que, no país, via de regra, terminava em cadeia. Naquele tempo, a homossexualidade era considerada crime tão grave quanto um assalto e destruía reputações de tal monta que impelia todo e qualquer homossexual para o armário. As vidas duplas, quando descobertas, invariavelmente abriam margem para que verdadeiros criminosos chantageassem e extorquissem os homossexuais, que, desesperados em encobrir sua condição, acabavam por ceder, pagando fortunas para os chantagistas. A situação era tão absurda que, ao ser retratada em um filme, gerou tal discussão que influenciou a sociedade até a homossexualidade deixar de ser tipificada como crime, isso em 1967. A obra também tem o mérito de retratar os homossexuais como pessoas absolutamente normais, cidadãos como quaisquer outros, pagadores de impostos e trabalhadores nas mais diversas áreas, ocupando profissões tão díspares como advogados, artistas, barbeiros ou profissionais da construção civil - em outras palavras, os gays estavam em todos os locais e apenas não se mostravam por medo das retaliações penais e do estigma social. O roteiro patina um pouco no início, quando a relação entre os diversos personagens não está bem clara, mas, gradualmente, as peças se encaixam e a narrativa passa a se desenvolver de maneira sólida. A narrativa é linear, em um ritmo marcante e crescente. A atmosfera é de tensão, quando não de desespero e angústia. Apesar dos ótimos argumento e roteiro, o filme peca um tanto em algumas questões técnicas, o que, apesar de incomodar, não chega a comprometer o resultado. O maior problema que eu identifiquei foi na fotografia e em algumas soluções de linguagem. A fotografia P&B marcadíssima, com muito contraste de claro e escuro, por diversas vezes errou em posicionamentos de luz, gerando sombras imperdoáveis, muitas das quais recaindo sobre os personagens ou sendo projetadas de maneira grotesca nos cenários. Outro "pecado" da obra foi a utilização exagerada de subterfúgios para criar tensão - perdi a conta das vezes em que, para destacar uma informação, a câmera de aproximou rapidamente do objeto (fosse este um real objeto ou um personagem), ao mesmo tempo em que se subiu o volume da música. Não sei se me fiz clara, mas esta solução de linguagem foi utilizada tantas vezes que, lá pelas tantas, perdeu o impacto e me soou um tanto patética. Por outro lado, o que o filme "errou" nestes quesitos técnicos, sobrou acerto nas interpretações. Evidente que o grande destaque é Dirk Bogarde - ator excepcional, cujo reconhecimento, por qualquer motivo escuso, ficou um tanto esquecido no passado. Seu personagem Melville Farr é complexo, tem volume e consegue transmitir toda a dor de viver uma vida dupla, ao mesmo tempo em que revela extrema integridade de caráter - tudo isso num trabalho irrepreensível de Bogarde. Outra que merece destaque é Sylvia Syms como Laura, esposa de Melville - a personagem, apaixonada pelo marido, não o abandona diante dos problemas, oportunidade em que uma informação se revela (sem spoilers rs). Gostei ainda do trabalho de Peter McEnery como Jack Barret, o amante sofredor e desesperado. Muito embora não tenha sido agraciado com grandes prêmios, o filme foi indicado a vários deles, dentre os quais o Leão de Ouro (1961) do Festival de Veneza e aos BAFTA (1962) de Melhor Ator Britânico (Dirk Bogarde) e Melhor Roteiro Britânico. A obra é beeeeem legal e bastante reveladora acerca da questão da orientação sexual na Grã-Bretanha na época. Gostei bastante e recomendo. PS - sofrível o título imposto ao filme no Brasil, já que o original "Victim" (Vítima) tem um sentido diametralmente oposto.

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