“Muito Mais que Um Crime”, de Costa Gavras, 1989
- hikafigueiredo
- 4 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (52/2025) – “Muito Mais que Um Crime”, de Costa Gavras, 1989 – Ann Talbot (Jessica Lange) é uma bem-sucedida advogada criminalista que, convencida de tratar-se de um equívoco, opta por defender o próprio pai, Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl), de uma séria acusação de ter praticada horrendos crimes de guerra durante a Segunda Guerra, quando da ocupação nazista na Hungria. Muito embora consiga rebater as acusações uma a uma, paulatinamente, Ann começa a se questionar acerca da inocência de seu pai.

Como todos os filmes do diretor, “Muito Mais que Um Crime” aborda questões políticas e instiga à reflexão. Aqui, o foco está na emergência de se levar a cabo as investigações de crimes de guerra, sendo impreterível a punição dos acusados por genocídios e crimes de ódio, ao mesmo tempo em que discute a contraposição entre convicções pessoais e dilemas éticos, especialmente quando envolve relações familiares e de afeto. As questões mais profundas que a obra propõe é “até onde conhecemos aqueles que nos são próximos?” e “o que deve prevalecer em uma situação em que nosso afeto vai de encontro à nossa ética?”. Através da narrativa, acompanhamos o trabalho da advogada Ann Talbot, a qual defende seu pai, amoroso e presente, em um processo em que ele é acusado de crimes de guerra durante a Segunda Guerra. A advogada, usualmente brilhante, mostra-se ainda mais combativa frente à sua convicção inabalável na inocência do pai. Ocorre que, diante de alguns detalhes, pouco a pouco Ann começa a sentir que sua convicção talvez não seja assim tão sólida e passa a se questionar acerca do que seu pai poderia ter feito na época em que se encontrava na Hungria, durante a ocupação nazista. Por mais que a advogada consiga rebater cada prova que lhe é apresentada, em seu íntimo, suas certezas vão sendo abaladas diuturnamente. A verdade virá à tona em um golpe de sorte e terá impactos profundos na vida de todos os envolvidos. A narrativa é linear e todos os acontecimentos do passado são expostos apenas através dos depoimentos das testemunhas. O ritmo é pausado e constante, brincando com a atmosfera de tensão que impacta o espectador. Uma coisa que eu reparei é que a minha opinião sobre Mike Laszlo se desenvolveu em um ritmo completamente diferente daquele vivenciado pela personagem Ann, cujo filtro de afeto incidia com afinco extremo, ou seja, o espectador questiona as afirmações de inocência de Mike com muito mais vigor do que sua filha e advogada, causando uma verdadeira dissociação entre o público e o ponto de vista principal da narrativa. Tratando-se de “filme de tribunal”, temos os típicos debates de argumentos, nos quais Ann sempre sai vitoriosa. Os depoimentos das testemunhas – sempre muito vívidos e dolorosos – vão causar uma boa dose de desconforto e sofrimento no público mais sensível, então certifique-se de querer ouvi-los, pois, embora sejam ficcionais, são bem próximos dos acontecimentos reais da época. O destaque fica, principalmente, para a interpretação visceral de Jessica Lange, que consegue expor tão bem, em sua expressão facial, as dúvidas e dores que a acometem. Por sua atuação magistral, Jessica Lange foi indicada ao Globo de Ouro (1990) e ao Oscar (1990) na categoria de Melhor Atriz. Gostei, também, da interpretação fria e contida de Armin Mueller-Stahl, sempre propalando sua inocência. No elenco, ainda, Frederic Forrest como o promotor Jack Burke, Donald Moffat como Harry Tabot e Lukas Haas como Mikey. O filme, ótimo e muito instigante, foi agraciado com o Urso de Ouro em Berlim (1990). Eu gostei bastante e recomendo. Segundo o Justwatch, o filme não está disponível atualmente em streaming, só em mídia física e torrent.



Comentários