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“Nathalie Granger”, de Marguerite Duras, 1972

  • hikafigueiredo
  • 22 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (46/2025) – “Nathalie Granger”, de Marguerite Duras, 1972 – Isabelle (Luce Garcia-Ville) é chamada na escola de sua filha Nathalie (Valerie Mascolo) devido a um comportamento violento da criança. Posteriormente, ela conversa com uma amiga (Jeanne Moreau) acerca da decisão de mandar a menina para um internato, mas o diálogo é interrompido por um vendedor (Gérard Depardieu).


 

“Tamanha violência numa criança tão pequena!”. A frase bombástica é repetida ao menos três vezes ao longo da narrativa e é através dela que tomamos conhecimento do comportamento violento da pequena Nathalie. Ocorre que esta é a única informação que é cedida ao espectador, pois, em momento algum, explicita-se a que se refere tal violência e, tampouco, as atitudes da menina quando em cena revelam qualquer agressividade que justificasse a afirmação. A narrativa, na verdade, foca no sofrido “diálogo” da mãe de Nathalie com uma amiga acerca do que fazer com a criança, a quem ela afirma não conhecer. O espectador, assim, recebe uma imagem de Nathalie através do filtro das demais personagens, uma abstração de segunda-mão que, inclusive, não encontra respaldo no que vemos da garota na tela - em certa cena ela pega um gato, e eu logo pensei: “pronto, ela vai ser má com o bichano e isso vai amparar a opinião de todos quanto a violência dela”, mas a menina o segura no colo, beija o felino e o coloca em um carrinho de boneca para “passeá-lo”. Mesmo quando ela se aborrece pelo gato não querer colaborar com a brincadeira e empurra o carrinho vazio, não me parece um comportamento extraordinário para uma criança frustrada. A suposta maldade, portanto, nos é desconhecida e assim permanece por toda a obra. O filme se trata de um recorte de um dia na vida daquelas personagens, longos minutos em que Isabelle, a mãe de Nathalie, dialoga sobre a filha com a amiga. Mas não se trata de uma conversa dinâmica – ao contrário, são quase divagações, entremeadas por longos e incômodos silêncios. Existe uma sensação bem sólida de suspensão do tempo, que oprime o espectador e revela a angústia de Isabelle. A atmosfera traz uma tensão pautada nessa angústia materna – é engraçado que é uma narrativa em que a ausência é mais forte que a presença, em que o que não acontece e o que não sabemos dita o ritmo e as regras. O espectador, por sua vez, é colocado numa posição de mero observador – ele não se sente incluído naquela dinâmica, ele é completamente ausente a ela. As muitas câmeras fixas que “seguram” as cenas mesmo após a saída das personagens, “esticando” a duração das cenas por um tempo que chega a incomodar, certamente auxiliam para termos essa sensação de exterioridade. A entrada de outro personagem – o vendedor – só acirra o mal-estar: Isabelle e sua amiga são duas esfinges, cujo olhar desprovido de qualquer emoção constrangem o vendedor, o qual sorri sem graça, torce as mãos nervosas e se perde no monólogo ensaiado da apresentação de seu produto. É, antes de tudo, um filme silencioso – pouquíssimos são os diálogos, quase inexistente a música diegética que se limita a alguns exercícios de piano. Mesmo os sons cotidianos são econômicos, motivo pelo qual certa narração radiofônica ganha um espaço extraordinário e se contrapõe ao ritmo pausado da narrativa. As muitas cenas das personagens se afastando, de costas para o público, e de seus reflexos em espelhos estrategicamente colocados chamaram a minha atenção e me colocaram a pensar sobre seu significado – seriam metáforas acerca da verdadeira natureza das personagens, principalmente de Nathalie, em contraste às imagens e leituras impostas pelo olhar do outro? Fato inegável é que este é um daqueles filmes sensoriais, no qual o que “sentimos” ganha terreno em relação ao que entendemos racionalmente – e a atmosfera de estranhamento, angústia e incômodo é o que prevalece. A fotografia P&B tornam a experiência mais árdua, aliada ao ritmo excepcionalmente lento e ao silêncio opressor. As interpretações, por sua vez, são muito econômicas – com exceção de Gérard Depardieu, que interpreta o vendedor e, como tal, é loquaz, até mesmo prolixo, todas as demais personagens estão a um passo da mudez e se mostram quase inexpressivas (inclusive a menina que interpreta Nathalie). A obra apresenta uma densidade emocional curiosa frente à narrativa parcimoniosa. Confesso que achei um filme estranho, mas bastante agradável aos meus sentidos. Disponível no Youtube.

 
 
 

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