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  • hikafigueiredo

“Nunca Te Vi, Sempre Te Amei”, de David Hugh Jones, 1987

Filme do dia (63/2023)- “Nunca Te Vi, Sempre Te Amei”, de David Hugh Jones, 1987- Nova York, 1949 – A escritora e leitora voraz Helen Hanff (Anne Bancroft), cansada de não encontrar na cidade os livros que procura – edições antigas e incomuns – entra em contato com uma livraria londrina que afirma ser especializada em livros raros. Na loja, sua carta é recepcionada por Frank Doel (Anthony Hopkins), que se esforça em providenciar as edições que Helen procura. Satisfeita por encontrar o que procurava, Helen volta a escrever para a livraria, dando início a uma longa relação.





Em primeiro lugar – a tradução do título é verdadeiramente imbecil e tenta cooptar o espectador através de uma falácia, criando uma falsa ilusão de romance. O título original é “84 Charing Cross Road”, o endereço da livraria, talvez a personagem mais importante da obra, posto ser o real elo entre os demais personagens. O filme, baseado no livro homônimo de Helen Hanff, trata, basicamente, de amor pelos livros e literatura, de onde surgem relações de afeto pessoais muito profundas. Durante anos, Helen e Frank trocarão cartas que criarão uma sólida amizade entre os dois. Outros personagens também entrarão nessa troca de correspondências, mas o foco será mesmo entre Helen e Frank. Podemos dizer que o filme é uma homenagem ao ato de ler, aqui tratado com a maior deferência. Esse amor aos livros é o que une Helen e Frank e o que faz com que um nutra profundo respeito e admiração pelo outro – e não o romance romântico que o título nacional sugere. A obra é extremamente sensível e trata da relação entre os personagens com muita delicadeza, jamais decaindo para algo vulgar. A construção da narrativa é bastante interessante, pois baseada, em quase sua totalidade, pela narrativa em off das cartas trocadas entre os personagens, cujas falas diretas são quase inexistentes. Percebemos, pouco a pouco, a construção desses laços de afeto entre os personagens através do conteúdo das cartas, é bem cativante. Gostei também da construção dos personagens – Helen e Frank são totalmente opostos; enquanto a escritora é extrovertida, “reclamona” e “abusada”, o livreiro é a imagem do lorde inglês – discreto, gentil e profundamente educado. Achei curiosa a opção pela “quebra da quarta parede” – oportunidade em que o personagem se dirige diretamente ao público, conversando com ele e olhando diretamente para a câmera -, coisa que acontece em duas ou três cenas de Helen. A narrativa é um flashback de Helen e o ritmo é bastante vagaroso (mas não se engane achando que é enfadonho; é um ritmo sedutor, que envolve o público por completo). A atmosfera é melancólica, mas doce e amorosa. Tecnicamente, é uma obra bem padrão: fotografia caprichada, mas não ousada; belo desenho de produção de época; som compatível. Impossível não se apaixonar pela livraria, quase sentimos o cheiro dela! O forte do filme são o roteiro e as interpretações. Temos aqui, três “monstros” do cinema: a maravilhosa Anne Bancroft, que enche de humanidade sua estabanada Helen; Anthony Hopkins, que nunca errou, como o sutil e contido Frank; e Judi Dench como a personagem Nora, a dedicada esposa de Frank. No elenco, ainda, J. Smith Cameron, Tony Todd, Mercedes Ruehl e Ian McNeice. Anne Brancroft ganhou o prêmio BAFTA (1988) na categoria Melhor Atriz pela sua interpretação. O filme é espetacular, pois, com muito pouco, desperta sentimentos enormes no público. Eu amei e recomendo. PS – a forma da narrativa baseada na troca de cartas é praticamente a mesma da animação “Mary & Max” (2009), outra obra incrível.

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