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  • hikafigueiredo

"Nuvens Flutuantes", de Mikio Naruse, 1955

Filme do dia (360/2021) - "Nuvens Flutuantes", de Mikio Naruse, 1955 - Japão, 1946. Após a derrota do Japão na Segunda Guerra, japoneses que haviam se deslocado para territórios conquistados são repatriados. Dentre eles, a jovem Yukiko (Hideko Takamine), que passara alguns anos na Indochina, onde se envolvera com Tomioka (Masayuki Mori), um homem casado. De volta ao Japão, Yukiko procura o antigo amante, que lhe prometera se divorciar e casar com ela. Mas as ações de Tomioka frustrarão os sonhos de Yukiko.




O filme, baseado no romance homônimo de Fumiko Hayashi, traz, como pano de fundo, um país devastado pela recente guerra tentando se reerguer, mesmo sob forte domínio do oponente, e, em primeiro plano, as desventuras amorosas da personagem Yukiko. A obra é um retrato bastante fiel de um relacionamento tóxico e obsessivo, da qual Yukiko não consegue se desvencilhar, mesmo sendo constantemente fustigada pela conduta abusiva e cruel do amante Tomioka. Na história, Yukiko desenvolve uma paixão doentia por Tomioka e mesmo após ser abandonada por ele na Indochina, sai à sua procura. O romance entre os personagens atravessará anos e anos, passando por afastamentos, traições, abandonos e reencontros. A personagem Yukiko assume, desde o primeiro momento, o papel de vítima - ela é permissiva e se submete ao companheiro, um indivíduo sedutor que acumula amantes e não tem qualquer responsabilidade afetiva. O relacionamento do casal é um reflexo da desestruturação do país e da completa ausência de perspectivas de um povo cuja a autoestima fora arrasada pela derrota na guerra. A narrativa é predominantemente linear - ainda que, na primeira meia hora, tenhamos vários flashbacks da história dos amantes - e com muitas elipses de tempo, num ritmo lento, tipicamente japonês. Super melodramática, a história tem uma atmosfera pesada, onde a desilusão e o desânimo dão o tom. O diretor faz questão de marcar profundamente dois momentos - as cenas do início do romance, na Indochina, quando o Japão estava no seu auge e os amantes vivenciavam a paixão nascente, onde a fotografia luminosa e a direção de arte luxuosa imprimem uma felicidade radiante e a perspectiva de um futuro glorioso; e as cenas do reencontro do casal, após a derrota na guerra, onde a fotografia escura e as imagens de um país arrasado refletem o declínio da relação e a depressão de um povo. Em diversas passagens temos, ainda, metáforas acerca do Japão no pós-guerra, como a submissão do país aos EUA quando Yukiko se prostitui para soldados americanos, ou o solapamento das tradições japonesas, quando um personagem faz sucesso e fortuna abrindo uma igreja, "vendendo esperança" para a população desesperada. Tecnicamente, o filme traz uma fotografia P&B maleável - ela será mais suave ou mais contrastada dependendo da intenção do diretor para a cena. Diferentemente do seu compatriota Ozu, Naruse não opta por planos abertos, fixos e longos - há, aqui, uma variação grande de planos e até mesmo alguns movimentos de câmera (há inúmeras cenas do casal caminhando pelas ruas e a câmera o acompanha em travellings bastante lentos, quase imperceptíveis). O filme, como é de praxe no cinema japonês da época, traz uma trilha sonora bem discreta e pontual - quase todas as músicas são diegéticas, isto é, fazem parte da cena, como as músicas natalinas que ouvimos ao fundo, outro sinal da influência americana no Japão pós-guerra. O elenco traz uma expressiva Hideko Takamine - há momentos em que a atriz consegue imprimir uma força dramática incrível com expressões faciais das mais sutis, como um leve arquear de sobrancelha ou um reles desviar de olhar, ela é uma atriz incrível (já a conhecia do ótimo "Vinte e Quatro Olhos", 1954); no papel de Tamioka, Masayuki Mori, um ator igualmente versátil, que estrelou obras dos maiores diretores japoneses da época, como Kurosawa ("Rashomon", 1950) e Mizoguchi ("Contos da Lua Vaga", 1953); Isao Yamagata interpreta o personagem Iba; e Mariko Okada a personagem Osei. Engraçado que, por qualquer motivo, eu tive uma percepção de tempo muito esquisita nesse filme - ele tem a duração de pouco mais de duas horas, mas, me pareceu muitíssimo mais, não sei explicar a razão disso. Como primeiro contato com esse diretor, digo que o resultado foi bem positivo - gostei bastante e recomendo sem medo, apenas alertando que é lento como a média dos filmes japoneses da época.

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