“O Aniversário”, de Jan Komasa, 2025
Filme do dia (49/2026) – “O Aniversário”, de Jan Komasa, 2025 – A família Taylor, composta pela matriarca Ellen (Diane Lane), seu marido Paul (Kyle Chandler) e os filhos Anna (Madeline Brewer), Cynthia (Zoey Deutch), Josh (Dylan O’Brien) e Birdie (McKeenna Grace) encontram-se para comemorar o 25º aniversário de casamento dos pais. No evento, Josh apresenta sua namorada Liz (Phoebe Dynevor), que Ellen reconhece como sua antiga aluna da universidade, afastada da faculdade por apresentar ideias totalitaristas e antidemocráticas. A interação entre Ellen e Liz, aparentemente educada, revela certa animosidade entre a professora progressista e a ex-aluna de ideais despóticos. Os cinco anos subsequentes acompanham as transformações na família e no país diante das propostas apresentadas por Liz.

O filme, infelizmente bastante atual, é uma representação do avanço da extrema direita em um mundo despreparado para enfrentá-la. Tendo a família Taylor – caracterizada por defender pautas progressistas e liberdade de expressão – como um pequeno universo que reflete a situação dos EUA, a obra escancara como o fascismo chega sorrateiramente e com ar de inocência e logo estende seus tentáculos insidiosos, alcançando todos os lugares e calando aqueles que se levantam contra suas ideias. O filme incomoda justamente por expor tão bem o discurso aparentemente unificador e esperançoso do totalitarismo que conquista terreno enquanto corrói a base do sistema democrático até extingui-lo por completo. Liz chega à casa dos Taylor como convidada – ela é educada, discreta e elegante, mas traz consigo um livro escrito por ela que defende o unipartidarismo, a união do povo em prol de ideais comuns e a supressão de vozes dissonantes que tentem acabar com essa comunhão popular. Ainda que tais ideais e a presença de Liz despertem um alerta na professora universitária Ellen, sua apreensão é tratada como exagero pelos demais familiares. Durante os cinco anos subsequentes, acompanhamos não apenas o crescimento do movimento advindo das ideias de Liz, mas, também, a escalada de violência, o silenciamento do debate e da oposição, o controle da sociedade por um governo autoritário, enfim, a instalação do fascismo, aplaudido por uma população bovinamente dócil e manipulável. Eeeeerrr, reconhecem os sinais? Algo que eu gostei demais de ter sido apresentado na narrativa é justamente de onde surge a base – ao menos inicial – que sustenta tal discurso: pessoas frustradas (aqui representadas pelo personagem Josh, um escritor sem talento e sem sucesso), que culpam sempre terceiros por seu fracasso e que, alçadas a algum grau de poder, têm sede de vingança por puro despeito e mágoa. O diretor Jan Komasa, mais uma vez, discorre sobre questões atuais, ele que já havia alertado para os perigos do universo virtual enquanto reduto de pessoas adoecidas em “Suicide Room” (2011), a hipocrisia nos ambientes religiosos cristãos em “Corpus Christi” (2019) e a manipulação nas redes sociais em “Rede de Ódio” (2020). Nem precisa dizer que o filme foi mega atacado pelo público “de bem”, irritado por se reconhecer na tela, muito embora o diretor jamais explicite quem é quem naquele cenário (se a carapuça serviu...). Eu gostei bastante como um reflexo do que vivemos hoje no mundo, ainda que o filme pudesse aprofundar mais algumas questões, como, por exemplo, a relação do autoritarismo com a religião ou o papel das mídias sociais dentro deste contexto. O filme funciona bem como thriller político e traz a atuação impecável de Diane Lane como Ellen (o restante do elenco também está bem, mas ela se destaca). Nunca uma distopia esteve tão próxima... Atualmente na grade do Prime Video.



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