• hikafigueiredo

"O Anjo Embriagado", de Akira Kurosawa, 1948

Filme do dia (421/2020) - "O Anjo Embriagado", de Akira Kurosawa, 1948 - Após ser ferido em uma disputa com uma gangue rival, o criminoso Matsunaga (Toshiro Mifune) é atendido pelo médico alcóolatra do paupérrimo bairro onde reside, o Dr. Sanada (Takashi Shimura). O médico rapidamente constata que Matsunaga sofre de uma tuberculose em avançado estágio e tenta convencer o jovem a abandonar a vida de vícios e violência para se tratar.





Retratando a periferia miserável de uma grande cidade japonesa no pós-guerra, o filme desenvolve-se mostrando a conturbada relação que se estabelece entre os dois personagens centrais. Se ambos encontram-se mergulhados numa realidade cinzenta, marcada pelas piores mazelas sociais, temos uma grande diferença entre o médico e seu paciente, pois, enquanto o primeiro empenha-se em fazer o melhor por seus pacientes (muito embora através de métodos pouco ortodoxos) e possuindo um olhar de certo modo otimista em relação à vida, o segundo só encontra referências junto ao mundo do crime, do qual sente dificuldade em se desvencilhar. Por outro lado, ambos aproximam-se no que se refere à lealdade aos seus princípios - o médico em defesa de seus pacientes e, o criminoso, leal aos seus "irmãos" da Yakuza. Ao longo da narrativa, vão desfilando, pela tela, os miseráveis e desassistidos daquela realidade - desempregados, pequenos comerciantes, órfãos, alcoólatras, prostitutas e contraventores, muitos dos quais acometidos de doenças variadas. A narrativa é linear e o ritmo mais ágil do que o habitual do diretor (mas ainda segue uma "lógica" oriental rs). Vale ressaltar que esta foi a primeira contribuição entre Kurosawa e Mifune - seriam, no total, dezesseis filmes juntos, resultando em verdadeiras obras primas (e muitas desavenças entre o diretor e o ator). A atmosfera do filme é pesada e um pouco angustiante. O filme conta com uma fotografia P&B suave, pouco contrastada, por vezes meio "enevoada", que parece trazer mais peso às imagens de pobreza - o bairro retratado possui uma grande lago, um enorme esgoto a céu aberto, onde lixo se acumula pelas margens e as crianças adoecem pelo contato com as águas paradas e essas imagem é recorrente ao longo do filme, sempre pelo olhar do médico. Quanto às interpretações, bem, estamos falando dos dois atores prediletos de Kurosawa, dois gigantes em cena. Takashi Shimura está perfeito como o resiliente médico (eu sempre acho que esse ator traz, em si, uma calma difícil de explicar, e eu o idolatro desde que o assisti em "Viver", 1952, uma das obras primas de Kurosawa); já Toshiro Mifune já dava mostras de seu talento como o jovem gângster Matsunaga - poucos atores alcançavam a expressão facial do ator, ele era muito maravilhoso (siiiiiiiiim!!!! Fã de carteirinha aqui). Não diria que "O Anjo Embriagado" encontra-se entre as maiores obras de Kurosawa, mas mesmo seu filme mais humilde está um patamar acima da média dos filmes em geral - Kurosawa era simplesmente genial e dominava a arte de fazer cinema como poucos. Se vale a pena? Kurosawa sempre vale. Sempre.

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