• hikafigueiredo

"O Assalto ao Trem Pagador", de Roberto Farias, 1962

Filme do dia (280/2020) - "O Assalto ao Trem Pagador", de Roberto Farias, 1962 - O bando de Tião Medonho (Eliezer Gomes) realiza um assalto ousado ao trem pagador, subtraindo 27 milhões de cruzeiros. Os assaltantes fazem um pacto de não gastar muito dinheiro para não despertar suspeitas, mas encontram grande dificuldade em cumprir o combinado.





Até pelo nome do filme, a obra, aparentemente, trata de uma ação criminosa. Mas isso apenas aparentemente, pois a intenção do diretor vai bem além. Por trás do assalto - que toma pouco mais de cinco minutos do filme - há toda uma crítica social acerca da pobreza, da falta de perspectivas da população mais humilde, da desesperança em um futuro melhor que empurra uma parcela da gente pobre para o crime, da necessidade de consumo desnecessário como símbolo de status. Há uma passagem chocante no filme que trata do racismo estrutural, quando um dos assaltantes - Grilo, branco, loiro e de olhos claros - afirma que ele pode comprar "carro de bacana" sem despertar suspeitas porque ele é branco e Tião Medonho tem de se recolher à sua insignificância e pobreza por ser negro e favelado - e é assim mesmo que pensa parte da nossa classe média e alta, branca, privilegiada e "limpinha" (contém ironia). Também é triste perceber as péssimas condições de vida em que viviam os bandidos e suas famílias, moradores dos morros cariocas, sem água e esgoto, em barracos minúsculos, as crianças todas "de pé no chão", uma tristeza. Então o filme é muito mais uma denúncia social do que um filme sobre polícia e bandido, ainda que ambas as figuras estejam presentes na história. O roteiro é muito bem delineado, segue tempo linear, tem um ritmo moderado e conta com a direção bem competente de Roberto Farias. No elenco, Eliezer Gomes está muito bem como o chefe da quadrilha Tião Medonho - engraçado que, por acompanharmos a história do ponto de vista dos assaltantes, nossa torcida é por eles e isso inclui o chefão do crime Tião. No papel de Grilo, um Reginaldo Farias muito jovem e já talentoso. O elenco traz vários nomes conhecidos como Ruth de Souza, Dirce Migliaccio, Jorge Dória, Helena Ignez, Clementino Kelé, Átila Iório, Chica Xavier e Luiza Maranhão. Destaque para o querido Grande Otelo como Cachaça!!! O filme é ótimo e, infelizmente, continua atual. Gostei demais e recomendo.

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