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  • hikafigueiredo

"O Auto da Compadecida", de Guel Arraes, 2000

Filme do dia (257/2021) - "O Auto da Compadecida", de Guel Arraes, 2000 - Paraíba, 1930. Na pequena cidade de Taperoá, vivem Chicó (Selton Mello) e João Grilo (Matheus Nachtergaele) - muito pobres, os dois amigos sobrevivem à base de muita malandragem. Contando com a astúcia de João Grilo, os dois conseguem emprego na padaria de Eurico (Diogo Vilela) e logo Chicó se engraça com Dora (Denise Fraga), a esposa do patrão. A chegada à cidade de Rosinha (Virginia Cavendish), filha do poderoso da região, modificará a história dos dois amigos.





Baseada na peça teatral de Ariano Suassuna, a obra foi, originalmente, concebida como uma série televisiva, produzida e transmitida pela Rede Globo em 1999, e, posteriormente, condensada para se tornar um filme de cinema. À primeira vista, o filme é todo "redondinho" - sensação esta causada pelo texto irretocável do autor Ariano Suassuna -, mas, visto com atenção, percebem-se alguns "buracos" aqui e ali, decorrentes da mencionada adaptação de série para filme - o que nem de longe macula a obra. Esta comédia dramática, de texto ágil, crítico e profundo, apresenta os personagens Chicó e João Grilo, os quais serão o fio condutor para a sátira que se segue. Sob a superfície bem humorada, encontramos críticas mordazes a todo o estabilishment - Igreja católica, exército e todos aqueles que detém poderio econômico e político nos confins do sertão. O texto de Ariano Suassuna é uma verdadeira pérola pois consegue ser leve e divertido sem perder seu teor de crítica e sua profundidade - há, ali, uma discussão filosófica sobre a realidade do Nordeste e a natureza do sertanejo, que precisa de criatividade e coragem para continuar sobrevivendo a todas as agruras locais. Todos os personagens imaginados por Suassuna são primorosos e exemplares, mas nenhum alcança a excelência de Chicó e, principalmente, João Grilo, que incorporam toda essa ideia de esperteza em prol da sobrevivência. Uma coisa que chama a atenção, também, na história, é a evidente religiosidade da obra - muito embora o autor seja severo com a instituição Igreja Católica, há evidente respeito e carinho pela religião em si, especialmente pelas figuras de Jesus e Maria, concebidos como justos, amorosos e compadecidos pelo sofrimento humano. Se o conteúdo do filme é brilhante, a forma não fica muito atrás. Realizado com esmero, a obra apresenta uma fotografia belíssima, em tons quentes, ainda que opte por uma linguagem convencional e sem grandes ousadias. A trilha sonora traz a sonoridade da região e até os repentistas são lembrados ao longo da narrativa (com o repente apresentado já nos créditos finais). Falar do elenco é até difícil - todos os intérpretes foram escolhidos a dedo e não há um único ator ou atriz deslocado no papel. Com nomes como Diogo Vilela (Eurico, o padeiro), Denise Fraga (Dora, a esposa infiel do padeiro), Bruno Garcia (Vicentão, o valentão da cidade), Enrique Diaz (cangaceiro "Cabra"), Lima Duarte (Bispo), Rogério Cardoso (Padre João), Paulo Goulart (Major Antônio Morais, o poderoso da região), Virginia Cavendish (a filha do Major) e Luis Melo (Diabo), poucas vezes se viu um elenco de apoio tãããããão bom e perfeito! Mas há que se fazer alguns destaques: Maurício Gonçalves aparece como Jesus Cristo - numa ousadia para um país racista como o Brasil, Suassuna concebeu um Cristo negro, o qual, inclusive, sublinha essa triste característica dos personagens ("você também é repleto de preconceito de cor"), numa indisfarçável crítica ao racismo; Fernanda Montenegro interpreta Nossa Senhora, "a Compadecida" - vem cá, alguma outra atriz conseguiria, como ela, encarnar uma figura sacra e beata como Nossa Senhora? Não, né? Ela, com seu jeito ponderado e sua voz amorosa, foi feita para a personagem; Marco Nanini interpreta o cangaceiro Severino - uma das figuras mais tocantes da narrativa, que, de assassino brutal é apontado como vítima de sua história pelo próprio Jesus, ocasião em que descobrimos seu triste passado; Selton Mello interpreta Chicó, um dos protagonistas, malandro, mas covarde, e nem sempre tão esperto assim, está ótimo no papel; mas o destaque absoluto fica por conta de Matheus Nachtergaele, um dos atores brasileiros mais versáteis e talentosos - ele dá vida ao astucioso João Grilo, sempre pronto para ludibriar aqueles que tentam se aproveitar dele, mostrando que inteligência e esperteza não são exclusividade dos bem nascidos, o ator está simplesmente sublime no personagem!!!! O filme é absolutamente maravilhoso e é apontado, por muitas pessoas, como um dos melhores filmes nacionais já produzidos. Eu amo de paixão e não canso de rever a obra. Mais um daqueles casos de improbabilidade de não se ter assistido, caso algum desgarrado ainda não o tenha visto, corre para ver, a obra é obrigatória para quem curte cinema (e literatura, teatro, etc). Nota mil!

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