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"O Beijo no Asfalto", de Bruno Barreto, 1980

Filme do dia (349/2021) - "O Beijo no Asfalto", de Bruno Barreto, 1980 - Um rapaz é atropelado por um ônibus e, agonizando, pede um beijo antes de morrer a Arandir (Ney Latorraca), única pessoa a acudi-lo, que não nega o pedido. Um jornalista mal intencionado e um delegado corrupto transformam o fato em um escândalo que ameaça o casamento de Arandir com sua esposa Selminha (Christiane Torloni), bem como a relação do jovem com seu sogro Aprígio (Tarcísio Meira).





Primeira versão para cinema da peça teatral homônima de Nelson Rodrigues, o trágico filme discorre sobre temas recorrentes ao autor - comportamentos considerados escandalosos pela moral burguesa e a hipocrisia da sociedade. Ao longo da história, temos menção a quase tudo que escandaliza a hipócrita sociedade burguesa, com seu moralismo fajuto e sua religiosidade míope - homossexualidade (o termo usado - homossexualismo - há muito deixou de ser utilizado, uma vez que o sufixo "ismo" indica patologia e hoje em dia, felizmente, a orientação sexual voltada para pessoas do mesmo sexo não é considerada doença, mas, na época em que Nelson Rodrigues escreveu o texto, esse era o vocábulo largamente utilizado; para mim, cada vez que era mencionada a palavra, eu senti uma punhalada no coração), aborto e traição, além dos verdadeiramente imorais incesto e pedofilia. Correndo por fora, temos cenas de ocorrências que escandalizam bem menos a nossa sociedade violenta, misógina e imoral - violência policial, tortura, corrupção, estupro e abuso de poder, tudo em um grande e bem engendrado caldo de horrores. Após beijar o agonizante homem, Arandir vira manchete de jornal e num claro episódio de homofobia e má-fé, passa a ser tachado de amante do falecido e responsável direto por sua morte, como se o tivesse assassinado, sendo, assim, objeto de investigação criminal. Como tudo o que o autor escreveu, a história agride diretamente nossa noção de justiça e empatia - eu fiquei arrasada com o tratamento dado a Arandir e Selminha. Os diálogos escritos por Nelson Rodrigues são cirúrgicos e expõe toda a sordidez e apodrecimento das entranhas da sociedade e das próprias pessoas que vivem nela. Se o texto é pontual e excelente, a qualidade técnica deixa um tanto a desejar, não por responsabilidade do diretor Bruno Barreto, mas pelas limitações do cinema nacional nos idos dos anos 70, começo dos anos 80, quando o que tínhamos à disposição em termos de equipamentos era tudo muito obsoleto. Por isso, espere uma fotografia granulada, mal iluminada e opaca, bem como uma qualidade sonora insatisfatória (não foram poucas as cenas em que não consegui entender o que era falado, de tão "embolada" que estava a banda sonora). A direção de arte, condizente com a época, é uma agressão ao bom gosto (será possível que as pessoas realmente se vestiam daquela forma em 1970/1980? Algum homem andava com a camisa aberta até o umbigo em seu ambiente de trabalho? Diz que não, vai...). O elenco trouxe Ney Latorraca como Arandir, perfeito como o homem correto e empático que é jogado em uma teia de mentiras e injustiças; Christiane Torloni interpreta Selminha, a influenciável e fraca esposa de Arandir; Lídia Brondi interpreta Dália, mostrada como uma ninfetinha oferecida (eu detesto personagens do gênero, pois jogam na conta de meninas jovens o comportamento predador de homens mais velhos, bem no estilo "Lolita", uma super passada de pano para pedofilia); Tarcísio Meira interpreta o Aprígio, o personagem-chave da obra (sem spoilers), magnífico no papel; Daniel Filho interpreta o jornalista sensacionalista Amado Pinheiro, um homem sem qualquer escrúpulo ou vergonha na cara; Osvaldo Loureiro, coitado, sempre escalado para fazer os personagens mais escrotos só porque não foi beneficiado por uma estética mais padrão, interpreta o delegado Cunha - violento, preconceituoso e corrupto - e, está ótimo como o canalha. Destaque para a cena de Selminha na delegacia, que nos remete aos horrores dos porões da ditadura, e para a cena final, trágica e tocante. O filme é excepcional, merece muito ser visto. Sei que foi feita uma refilmagem em 2018, mas ainda não tive a chance de ver, assim que possível, falarei a respeito. Este aqui é filmão, vale bem a visita.

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