“O Brutalista”, de Brady Corbet, 2024
- hikafigueiredo
- 9 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (66/2025) – “O Brutalista”, de Brady Corbet, 2024 – 1947. O arquiteto judeu László Tóth (Adrien Brody) chega da Hungria aos EUA após sobreviver ao Holocausto. Ele é recebido por um primo e passa a viver no depósito de sua loja de móveis enquanto usa seu conhecimento para tentar alavancar o negócio, mas rapidamente ele percebe que o “sonho americano” talvez seja somente isso... um sonho.

Quando o filme começou e logo em uma das primeiras cenas acompanhamos um grupo de imigrantes chegando em Nova Iorque e vendo a Estátua da Liberdade, eu pensei, com o maior ranço: “mais um filme enaltecendo os EUA e vindo com aquela balela de ‘terra das oportunidades’. É certo que vou detestar”. Mas, em pouco tempo de narrativa, percebi que o filme era bem mais crítico do que eu pensava e discorria, justamente, sobre a falácia do sonho de sucesso estadunidense e do país acolhedor para todos, expondo como os imigrantes sempre foram maltratados e excluídos pelos locais. Há, aqui, uma crítica severa sobre as promessas feitas aos estrangeiros, as expectativas criadas nos imigrantes e a dura realidade na qual eles se descobrem em pouco tempo no solo estadunidense. Na história, o talentoso arquiteto László Tóth foge da Europa rumo aos EUA após sobreviver a um campo de concentração. Ele é recebido por um primo, mas o acolhimento dura pouco tempo e, rapidamente, ele acaba na rua, sobrevivendo através de trabalhos temporários e subempregos, até que um milionário – Harrison Lee Van Buren – o contrata para fazer uma faraônica obra em sua propriedade. László vê na oportunidade a grande chance da sua vida, sem imaginar que uma conflituosa relação iria começar a se desenhar entre ele e seu mecenas. O filme é construído como uma cinebiografia do arquiteto fictício, que vai de sua chegada aos EUA até sua velhice, como um renomado arquiteto, após ser homenageado em uma Bienal de Arquitetura na Itália. O roteiro acompanha a jornada do arquiteto de tal forma que vemos a lenta mudança do protagonista – de humilde refugiado expatriado a um homem revoltado e irascível pelo tratamento que lhe é dispensado por anos a fio. Em uma cena, em particular, o protagonista grita para sua esposa que “eles não nos querem aqui”, a expor a xenofobia, o preconceito e a completa falta de empatia do estadunidense médio. O filme, longuíssimo – são 3h22 minutos de duração – possibilita uma transformação lenta e complexa do protagonista. Se, por um lado, a propaganda dos EUA como um país acolhedor cai por terra – o que me agradou profundamente -, por outro existe certo marketing sionista que me soou bastante deslocado, ainda mais considerando a história recente de Israel e seu envolvimento com o genocídio dos palestinos – poxa, aí não tem como defender. Mas, apesar do tropeço, o filme é ótimo, envolvente e extremamente bem-feito. Achei incrível a sólida direção da obra e a forma como o diretor brinca com diferentes ritmos de cena: a narrativa é pontuada por cenas que situam o espectador (seja no tempo ou no lugar), quase sempre com um ritmo diverso ao da história “principal”. São fragmentos da história com ritmo alucinante ou mais vagarosos, que destoam do que estava acontecendo até então. Formalmente o filme é perfeito, da fotografia detalhada (mas que, por vezes, torna-se mais granulada para pontuar uma dessas inserções) à trilha musical de alta qualidade e que acompanha o estilo da época retratada. Mas nada, por melhor que seja, compara-se à interpretação irretocável de Adrien Brody como László – sua personalidade e fisionomia mudam ao longo da narrativa e vão da humildade à arrogância, isso sem contar com a caracterização do personagem, em especial para seu sotaque; Felicity Jones interpreta Erzsébet, esposa de László, num papel que fica aquém do talento dela; Guy Pearce, por sua vez, interpreta o mecenas do protagonista, Harrison Lee van Buren, que se revela uma pessoa complicada e narcisista – sério, em alguns momentos a gente “garra ódio” no personagem de Pearce, muito bem interpretado pelo ator. No elenco, ainda, Joe Alwyn como filho de Harrison, Raffey Cassidy como Zsófia, a sobrinha de László e Isaach de Bankolé como Gordon, amigo de László. O filme é ótimo e mesmo a duração infinita não me deixou com sono (incrível!) A obra ainda foi agraciada por inúmeros prêmios, dentre os quais Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator em Filme Dramático no Globo de Ouro (2025); Melhor Ator, Melhor Diretor, melhor Cinematografia e Melhor Trilha Sonora no BAFTA (2025); Melhor Ator, Melhor Trilha Sonora e Melhor Fotografia, no Oscar (2025). Segundo o Justwatch, o filme está disponível em streaming pela Prime Video.



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