• hikafigueiredo

"O Cremador", de Juraj Herz, 1969

Filme do dia (60/2021) - "O Cremador", de Juraj Herz, 1969 - Tchecoslováquia, década de 1940. Em um país prestes a ser invadido pela Alemanha nazista, Kopfrkingl (Rudolf Hrusinsky) comanda um pequeno crematório na cidade de Praga. Por ter ascendência alemã, ele é convencido por conterrâneos a aderir à ideologia nazista, revelando seu lado mais sombrio e desequilibrado.





Apesar de ser incluído em coletâneas do gênero terror, eu considero o filme como um drama - terror, para mim, são histórias com fundo sobrenatural, o que não é o caso. A obra faz parte da Nouvelle Vague Tcheca e traz o tom autoral que caracteriza os filmes desta corrente. A história trata da transformação do protagonista, originalmente um homem gentil e espiritualizado, em um indivíduo sanguinário, fanático e desequilibrado - evidente que temos aqui uma forte crítica aos regimes de extrema direita e aos colaboracionistas do país. O filme tem uma linguagem toda particular: planos muito fechados, muitos planos de detalhe, principalmente de rostos, o protagonista falando quase o tempo todo - as vezes com terceiros, às vezes apenas divagando -, enquadramentos diferentes e estranhos, uso persistente de lente grande angular que distorce a imagem e traz uma sensação de irrealidade, por vezes, de pesadelo - tudo compondo uma atmosfera sombria e tensa. O protagonista é uma figura desagradável desde o começo da história - ainda que gentil e educado, afetuoso com os seus, o personagem já parece um pouco descolado da realidade e tem sempre um meio sorriso que não parece legítimo, não consegui ter qualquer empatia por ele desde o primeiro minuto de filme. O ritmo começa bem vagaroso - aliás, o filme demora um pouco para "engrenar" -, mas ganha movimento à medida em que nos aproximamos do desfecho. Destaque para a cena da cerimônia fúnebre - onde o protagonista sai de seu tom suave e monocórdico e ganha uma modulação enérgica, típica de políticos em campanha, com um conteúdo alarmante. Destaque para a cena onde o protagonista persegue a personagem Zina pelo crematório. O ator Rudolf Hrusinsky fez um trabalho excelente na composição de Kopfrkingl, como já disse, um personagem repulsivo desde o início, ainda que o espectador não consiga definir o porquê. O filme é bem interessante, bastante diferente do que estamos habituando no cinema mainstream. Minha única reclamação é que ele demora para "engatar", o que não chegou a estragar a experiência. Eu gostei e recomendo.

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