• hikafigueiredo

"O Desterro", de Andrey Zvyagintsev, 2007

Filme do dia (395/2020) - "O Desterro", de Andrey Zvyagintsev, 2007 - Durante uma viagem à casa da família no interior, Alexander (Konstantin Lavronenko) é surpreendido por Vera (Maria Bonnevie), sua esposa, que lhe diz estar grávida, mas que o filho não é dele. Alexander, então, terá de decidir qual decisão tomar frente a essa informação.





O diretor Zvyagintsev gosta de premiar seu público com obras que discorram sobre aflições internas e angústias de seus personagens, quase sempre como reflexos de questões relacionadas ao seu país natal, a Rússia. Aqui, não foi diferente. O filme trata de temas como solidão, pertencimento, indecisão, depressão, arrependimento e desalento, e não à toa tem, no título, a ideia de ser arrancado do local a que se pertence. Acompanhamos, com certa angústia, o martírio do casal, ele dividido entre o ciúme e o amor que sente pela esposa e filhos, ela, devastada por uma depressão preexistente. A narrativa é não linear, muito embora pareça seguir tempo cronológico por boa parte de sua duração. O ritmo, como de praxe no diretor, é lento, não há pressa em dar um desfecho àqueles sentimentos perturbadores. A atmosfera é de desalento, uma sensação de chão perdido, uma confusão emocional que segue o estado de espírito dos personagens. É um filme muito silencioso, quase não há trilha sonora (que eu tenha percebido, ela só acontece em duas situações, uma logo no começo e a outra na cena final), o que gera um profundo e recorrente desconforto no espectador pelos longos silêncios. A fotografia, maravilhosa, é bastante contrastada e são frequentes os recortes: são dezenas de portas, janelas, corredores e escadas que fazem um "recorte" na ação, emoldurando-a. Também há o uso constante de profundidade de campo - uma ação acontecendo em primeiro plano e outra, diferente e independente da primeira, ao fundo. A fotografia também brinca muito com os reflexos - vidros, espelhos e superfícies planas reflexivas diversas são utilizadas para indicar uma ação e/ou imagem fora do campo de visão direta do público. As interpretações são fortes, pesadas, muito introspectivas e pautadas em profundos silêncios e olhares vazios. Quem já viu outras obras do diretor, como O Retorno (2003), Leviatã (2014) ou o mais recente "Desamor" (2017), sabe que ele não brinca em serviço ao tratar de temas profundos e dolorosos. A obra é excelente, bastante triste, sem concessões e surpreendente. Recomendo demais.

24 visualizações0 comentário