• hikafigueiredo

"O Diabo de Cada Dia", de Antonio Campos, 2020

Filme do dia (369/2020) - "O Diabo de Cada Dia", de Antonio Campos, 2020 - EUA, década de 1950. O veterano de guerra Willard (Bill Skarsgard) chega a uma pequena cidade perdida no interior dos EUA e conhece Charlotte (Halley Bennett), apaixonando-se imediatamente. Eles casam e têm um filho, Arvin. Willard não tem grande afinidade com a religião cristã, mas, quando sua esposa adoece, ele busca, através da penitência e do sacrifício, uma forma de agradar a Deus para que ele não leve Charlotte, tendo ações que trarão consequências definitivas para seu filho Arvin.




Adaptação do romance homônimo de Donald Ray Pollock, a obra é um thriller com ares de drama que traz, a reboque, uma crítica contundente à religião e à sociedade falsamente puritana e moralista. Apresentando boa parte dos pregadores como pessoas desequilibradas e/ou sem caráter e seus fiéis como crédulos e ingênuos, o filme faz uma crítica ao poder das religiões, ao fanatismo e à hipocrisia que, via de regra, acompanham os religiosos mais ferrenhos. Não bastasse a crítica à religião, pilar daquela sociedade interiorana, o filme ainda critica a aparente moralidade daquela "gente de bem", que esconde, em suas entranhas, uma natureza violenta, corrupta, gananciosa, perversa, manipuladora e doentia, chegando ao limite de ter, entre os seus, verdadeiros psicopatas sanguinários e gente sem qualquer empatia (nossa... por que isso me parece tão familiar?). A narrativa é não linear, indo e voltando na linha de tempo algumas vezes para situar o espectador quanto à família Russell, e, mais especificamente, o jovem Arvin, que, embora correto, bem intencionado e cheio de escrúpulos, acaba não conseguindo se manter a salvo da violência e da loucura daquela sociedade. O ritmo é intenso - há vários clímaces ao longo da história, mantendo a tensão eternamente em alta - e a atmosfera é bastante tensa e angustiante. Destaque para a direção de arte de época, focada nas décadas de 50 e 60. A obra traz um elenco de respeito até mesmo nos papeis coadjuvantes. Tom Holland interpreta o jovem Arvin, incrivelmente bem e completamente diferente daquela imagem que temos dele por conta de sua participação nos filmes do Homem-Aranha - diferentemente do personagem da Marvel, Arvin é um rapaz "safo", muito esperto, decidido e com iniciativa, cheio de boas intenções, ainda que comece flertando com a violência e, lá pelas tantas, a abrace definitivamente, até como meio de sobreviver àquela sociedade corrompida; Bill Skarsgard interpreta Willard, de natureza original bastante parecida com a do filho, mas que se entrega a uma leitura um "pouco" heterodoxa e doente da religião cristã; Robert Pattinson está fantástico como o pastor Teagardin, uma figura asquerosa e completamente perversa, cuja interpretação me lembrou demais a de John Malkovich em diversos personagens que ele fez ao longo da carreira (vamos combinar que ser comparado a Malkovich é um elogio para poucos); Sebastian Stan também está muito bem como o corrupto delegado Lee Bodecker. No elenco, ainda, Mia Wasikowska, Jason Clarke, Halley Bennett, Riley Keough e Eliza Scanlen. Olha... eu curti bastante o filme e seu olhar pouco condescendente para com a sociedade interiorana e "religiosa". Gostei demais das interpretações dos atores e atrizes envolvidos e do clima de desalento face à constatação da natureza negativa do ser humano. E eu adorei a imagem brutal que foi dada aos pastores, falsos profetas e pregadores em geral, acho muito condizente com a realidade. Recomendo demais!

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