• hikafigueiredo

"O Funeral das Rosas", de Toshio Matsumoto, 1969

Filme do dia (283/2020) - "O Funeral das Rosas", de Toshio Matsumoto, 1969 - Eddie (Peter) e Leda (Osamu Ogasawara) são duas travestis que disputam o mesmo homem, Gonda (Yoshio Tsuchyia), sem saber que este tem um passado comum com Eddie.




Baseado na tragédia grega "Édipo Rei", o filme faz uma ousada releitura homoerótica da peça de Sófocles, ao mesmo tempo em que dá voz a uma parcela estigmatizada da população japonesa - a de homossexuais e transgêneros. Misturando ficção com partes documentais e, ainda, trazendo um componente metalinguístico à narrativa, a obra tem um formato arrojado e original - talvez até demais - mesmo para os dias atuais. Uma questão que me foi levantada: o filme coloca, em um só balaio, gays, transsexuais e travestis, numa grande massa amorfa e sem particularidades e, pelas perguntas superficiais e sem noção das entrevistas agregadas à narrativa, pareceu-me que o diretor Matsumoto não tinha muita familiaridade com o tema, o que me soou um pouco aproveitador. Eu me explico: posso estar enganada, pois admito que nada sei deste diretor, mas a impressão que a obra me causou é de que o tema foi usado para chocar, incomodar a tradicionalíssima sociedade japonesa da década de 60, e não para auxiliar na inclusão destas pessoas desconsideradas por esta sociedade, ou, ainda, oferecer informações acerca da homossexualidade (nem vou entrar no mérito de separar "orientação sexual" de "identidade de gênero" porque imagino que, na época, isso nem era discutido e sei lá em que pé estavam os estudos sobre esses temas). Ainda assim, o filme tem o mérito de abrir um espaço para gays e travestis falarem um pouco de si e mostrarem sua existência no mundo. A narrativa é não-linear ao extremo e, por vezes, larga a história para enveredar pelo documentário através de entrevistas ou, ainda, insere fragmentos do making off do filme, de forma que ele tem um forte componente metalinguístico. A obra é profundamente experimental e isso tem de ficar bem claro para o público, porque há momentos em que o filme abandona de vez a história e se torna quase uma videoarte e nem todo espectador vai se adaptar a esse formato esdrúxulo. A fotografia é toda P&B e agrega uma grande variedade de efeitos, linguagens e tipos de planos - olha, eu disse, é bem experimental e vanguardista. O ritmo da obra é um pouco truncado, justamente por misturar ficção, documentário e - não sei bem como chamar - "inserções artísticas" diversas. Quanto ao elenco, quem me chamou a atenção foi Peter, alter ego de Sninnosuke Ikehata, como a travesti Eddie - quem dera ter um quinto da delicadeza e feminilidade de Eddie, viu. Nas entrevistas, Peter ressaltou as coincidências entre a personagem e ela, de forma que ela sentiu estar, praticamente, interpretando a si mesma (exceto, claro, pelo desfecho relacionado à peça grega). merece destaque, ainda, o trabalho de Osamu Ogasawara como Leda. Destaque absoluto para a cena final, ótima e impactante. Apesar de ter gostado do filme, ressalto que ele é muito "modernoso" até para mim e tem uma coisa meio "kitsch setentista" bastante datada. Só recomendo para quem estiver muito aberto a experiências nas artes-visuais

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