• hikafigueiredo

"O Homem do Norte", de Robert Eggers, 2022

Filme do dia (77/2022) - "O Homem do Norte", de Robert Eggers, 2022 - Ainda criança, o príncipe Amleth (Oscar Novak) presencia seu tio Fjölnir (Claes Bang) assassinar seu pai, o rei Horvendill (Ethan Hawke) e sequestrar sua mãe, a rainha Gudrun (Nicole Kidman). Ele foge e, anos depois, já adulto, Amleth (Alexander Skarsgard) retorna, incógnito, para vingar seu pai e salvar sua mãe.





Releitura livre e "roots" da obra Hamlet, de Shakespeare, o filme traz a história da família real da Noruega envolta em sangue e lágrimas com uma roupagem bem mais sombria do que nos habituamos a ver. Saem os ambientes nobres e refinados, típicos da realeza, e entra a realidade brutal das conquistas vikings, com muita violência e - lógico, tratando-se de Eggers - uma boa dose de misticismo e mitologia nórdica. Evidentemente, por basear-se numa história amplamente conhecida do espectador, o desenvolvimento e o desfecho do roteiro não surpreendem, mas, pela forma inovadora como é tratada, a narrativa envolve e, sim, consegue criar certa expectativa, pois, se o "esqueleto" segue os caminhos originais, os detalhes são frutos exclusivos da criativa imaginação do diretor, também roteirista da obra. A história, como na peça de Shakespeare, trata da vingança pessoal do jovem príncipe, que mergulha numa espiral de loucura e obsessão em busca de seu objetivo sangrento - que, aqui, ganha um realismo gráfico bastante impressionante. Eggers capricha no visual, trazendo uma fotografia primorosa, em cores "desmaiadas", cinzentas, sem brilho ou saturação, que nos remete aos gélidos ambientes do Norte da Europa. Em momentos-chave, temos uma câmera movimentada, que passeia pelo cenário em planos longos, como na cena da batalha onde Amleth nos é reapresentado já adulto. A beleza cênica do local das filmagens é muito bem aproveitada em impressionantes planos abertos. O ritmo é bem irregular - lento na construção de tensão, torna-se bem mais marcado quando em cenas de conflito e luta. A direção de arte é excepcional, mostrando a realidade dos bárbaros de forma bastante crua. O elenco me pareceu escolhido a dedo - Alexander Skarsgard assume a identidade do obsessivo príncipe Amleth, mostrando que suas raízes nórdicas estão bem vivas dentro dele; Nicole Kidman, perfeita, dá vida à rainha Gudrun, uma personagem bem mais complexa do que na história original - aqui, existe uma justificativa bem sólida para a conduta da rainha infiel; Anya Taylor-Joy interpreta Olga, assumindo o papel que, no original, seria de Ofélia, mas com com desfecho completamente diferente; Ethan Hawke faz o rei Horvendill e seu pouco tempo em cena não diminui seu ótimo trabalho; Willem Dafoe, retomando a dobradinha com Eggers, muito produtiva no excelente "O Farol" (2019), interpreta o personagem Heimir, o bobo-da-corte e bom amigo do rei, destacando-se pela cena do ritual; Björk faz uma pequena ponta como uma vidente, em uma única, mas marcante cena. O filme é muuuuuuuito bom, dá um tempero extra na maravilhosa peça de Shakespeare!!! Recomendo demais!

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