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  • hikafigueiredo

“O Homem Errado”, de Alfred Hitchcock, 1956

Filme do dia (69/2024) – “O Homem Errado”, de Alfred Hitchcock, 1956 – Manny Balestrero (Henry Fonda) é um músico que vive uma vida regrada e pacata com a esposa Rose (Vera Miles) e os dois filhos do casal, até o dia em que ele é acusado de assaltar uma financeira, motivo pelo qual é preso e indiciado.





Baseada em uma história real – algo que é destacado logo na primeira cena do filme, em um curto prólogo do diretor -, a obra vai discorrer sobre acusação, equívoco e culpa. A narrativa tem início retratando o cotidiano banal e pacato da família Balestrero. O protagonista Manny é um homem caseiro, devotado à família, religioso e sem vícios. Subitamente, ele é responsabilizado por dois assaltos – é reconhecido pelas vítimas, preso e indiciado, necessitando, então, provar sua inocência. A vida de Manny e de sua esposa é virada do avesso – a cena do indiciamento do personagem é tocante, pois Hitchcock é hábil em mostrar a perplexidade do protagonista, numa clara mistura de anestesiamento e choque. Ao longo da narrativa, vemos a busca de Manny e Rose por álibis, ao mesmo tempo em que o diretor lança, aqui e ali, informações que nos levam à dúvida acerca da inocência do personagem (como a questão da suposta dívida com corridas de cavalo). A narrativa explora bem essa dualidade entre culpa e inocência até quase o fim da obra, quando, então, toda a verdade é revelada. Questões que valem à pena destacar: 1. Vejo a obra como uma crítica a como se dá o processo criminal e como é frágil a presunção da inocência até que se prove o contrário – a frase “um inocente não precisa se preocupar”, proferida ao longo do filme, parece uma ironia frente ao calvário que o protagonista enfrenta; 2. A reação de uma pessoa acusada, equivocadamente ou não, depende muito da natureza desta pessoa – a atitude de Manny pode causar certa indignação no espectador justamente por ele não demonstrar revolta ou assertividade. Ao longo de sua trajetória, Manny mostra-se quase resignado, muito embora continue afirmando-se inocente, o que causa certo estranhamento e levanta alguma dúvida quanto à veracidade de sua afirmação. Essa reação de Manny está diretamente ligada à sua natureza pacata e claramente aversa ao confronto, o que é confirmado quando ele diz que preferia ser considerado culpado a ter de passar de novo por um julgamento; 3. Muito embora tenha certeza de que Hitchcock nem pensou nisso, o filme traz o quanto o machismo estrutural adoece as mulheres, pois, de uma forma ou de outra, as mulheres sempre são responsabilizadas por tudo de ruim que acontece – Rose, a certa altura, assume a responsabilidade pelo drama que a família vive, alegando que se ela tivesse economizado, Manny não teria ido à financeira em busca de empréstimo e não teria sido reconhecido. Ela diz, com todas as letras, que a culpa é dela. Vemos, então, a personagem fazer uma ginástica absurda para assumir uma culpa que não caberia minimamente a ela. O fato de Rose entrar em colapso tem muito mais a ver com uma sociedade machista, que joga responsabilidades em excesso nas mulheres, do que propriamente à fragilidade psicológica da personagem (vão dizer que eu estou militando, mas essa é a minha visão quanto à reação da Rose). Formalmente, a obra alinha-se com o gênero noir, com sua fotografia P&B bem contrastada, que salienta a dramaticidade das cenas, o que também se dá pela escolha dos posicionamentos de câmera diferentes e sofisticados, bem como pelos muitos planos fechados, que destacam as expressões dos atores ou elementos narrativos específicos (como as mãos sujas de tinta de Manny ou a mão nervosa de Rose no próprio casaco). Como nas demais obras do diretor, a música também impulsiona a dramaticidade das cenas, elevando-se potentemente em determinadas situações. Quanto às interpretações, temos um Henry Fonda pungente como o estupefato Manny – o ator consegue transmitir emoções intensas com meros olhares, mesmo sem a reação indignada do personagem; a mansidão de Manny não impede que o personagem manifeste uma agonia profunda, num trabalho irrepreensível do ator; Vera Miles, por sua vez, também tem atuação marcante como Rose, em especial quando passa a manifestar seu desequilíbrio emocional. Destaque para a cena da prisão de Manny, em especial quando a câmera se move em círculos, a demonstrar o atordoamento do personagem; e para a cena do espelho quebrado, a representação do esfacelamento psicológico de Rose. É fato que não existe filme menor de Hitchcock, tudo que ele fez tem uma qualidade impressionante e mexe com o espectador, e aqui não foi diferente. Filmaço, merece muito ser visto!!!! Segundo o Justwatch, o filme está para alugar no Amazon Prime e no Apple TV.

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