“O Homem Mais Solitário da Cidade”, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, 2026
Filme do dia (38/2026) – “O Homem Mais Solitário da Cidade”, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, 2026 – Al Cook (Alois Koch) é um músico aposentado que vive de reminiscências. Encerrado em seu apartamento e estúdio, ele vive cercado de fotografias, discos de vinil e revistas antigos. Quando uma empresa imobiliária resolve construir um novo condomínio no local onde hoje está seu prédio, Al precisa enfrentar a decisão de reencontrar um novo estilo de vida.

Quem se aventurar por essa obra, ao longo dos primeiros vinte minutos irá ter uma profunda sensação de déjà vu. Isso porque o mote inicial é absolutamente o mesmo do maravilhoso “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho. Só que, enquanto o diretor brasileiro funda seu filme sobre questões como resistência, resiliência, preservação da história, luta, carregando a narrativa de significância político-social, os diretores de “O Homem Mais Solitário da Cidade” enveredam por um caminho totalmente diverso, focando nas particularidades do personagem principal e despindo o filme de qualquer elemento ou crítica social. Aqui temos um solitário homem que se nega a sair de seu passado. Como que parado no tempo, ele vive das memórias de uma feliz época já esquecida por todos. Essa existência erigida sobre meras lembranças é abalada pela notícia de que o prédio em que Al vive – e no qual ele é o último morador – será em breve demolido para dar lugar a um novo empreendimento. Al resiste às mudanças, mas, rapidamente, ele cede à pressão da empresa imobiliária. Diante da situação, Al precisa rever sua existência, abandonar sua autorreclusão e enfrentar o desafio de retomar sua vida. Analisando essa história, percebi que ela pode gerar atmosferas bem díspares, dependendo muito do espectador. Para mim, que sou pessoa essencialmente sociável, bem no estilo “arroz de festa”, a reclusão autoimposta pelo protagonista me soava deprimente, solitária, insuportável, e a impulsão forçada para a mudança, um sopro de esperança; já se esse filme fosse visto pela minha irmã, uma pessoa que absolutamente detesta sair de seu canto, ela sentiria o exílio social do personagem extremamente confortável e a necessidade de abandonar aquele estilo de vida, uma agonia. Assim, minha leitura sensorial da obra é, bem mais do que de outras, bastante particular e possivelmente incompreensível para pessoas avessas à socialização. Para mim, a parte inicial do filme trouxe um sentimento de angústia, amenizada levemente pela parte final. Por outro lado, senti certo incômodo pela resignação do protagonista em abandonar seu mundinho tão rapidamente, o “sangue nos olhos” da personagem Clara, de “Aquarius”, sua combatividade e teimosia me são muito mais admiráveis do que a pasmaceira de Al. Também me incomodei por Al abrir mão de suas coisas carregadas de significados – entre viver de lembranças e abandonar por completo sua história existe um caminho muito grande a percorrer e acho que isso acontece rápido demais na obra. Inclusive não gosto, nem um pouco, da ideia subliminar que essa narrativa carrega, que é de esquecer o passado – perigoso, não? Formalmente, o filme é bem convencional, trazendo um desenho de produção muito eficiente – a gente quase consegue sentir o cheiro de ácaro e bolor naquele apartamento de Al, de tanta coisa velha acumulada. Também admirei a trilha musical do filme, repleta do bom e velho blues e rock antiguinhos. Alois Koch, por sua vez, fez de Al um personagem inicialmente triste, que parece ganhar alguma cor no decorrer da narrativa. Num primeiro momento, eu até gostei do filme, apesar do ritmo extremamente moroso; mas, ao escrever dele, me dei conta que ele transmite ideias das quais discordo parcialmente e isso “pegou” um pouco para mim. Como a comparação com “Aquarius” é inevitável, sou mais a obra brasileira que a austríaca. Vigésimo terceiro filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



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