• hikafigueiredo

"O Professor Substituto", de Sebastian Marnier, 2018

Filme do dia (363/2020) - "O Professor Substituto", de Sebastian Marnier, 2018 - Após o suicídio em classe de aula de um professor, Pierre (Laurent Lafitte) é chamado, às pressas, para substituí-lo. Ele assume as aulas de francês de alunos com capacidade intelectual precoce, os melhores alunos da escola. O que ele encontra é um grupo de alunos apático, arrogante e autodestrutivo. Tentando entender o estranho comportamento dos jovens, Pierre passa a observá-los de longe.





O filme pode ser resumido em duas palavras: extremamente perturbador. Baseado no livro homônimo de Christopher Dufossé - "L'Heure de la Sortie", algo como "Hora da Saída" -, o filme já começa com um fortíssimo gatilho para o suicídio, com o professor titular daquela turma se atirando da janela da sala de aula. Comecei a assistir à obra aguardando um drama, mas, na realidade, me deparei com um filme que tem elementos de thriller, terror e, sim, do esperado drama. A história é muito pesada e trata da realidade a um passo da distopia que todos nós estamos vivendo sem nos dar conta e onde a destruição do meio ambiente, o descaso com a sociedade, o consumo desenfreado e a completa ausência de perspectivas dão a tônica - tudo diante de uma sociedade apática, conformista e iludida. Pierre é um professor preocupado com seus alunos, bastante diferente do resto do corpo docente que só vê a capacidade intelectual daqueles jovens, ignorando, por completo, seu lado psicológico, suas necessidades e suas existências extra-muros da escola. Seguindo o grupo de alunos, Pierre descobre, horrorizado, que são jovens niilistas, desprovidos de qualquer expectativa de futuro e extremamente conscientes do mundo que receberão como herança das gerações antecedentes. Autodestrutivos, os adolescentes agem de maneira violenta entre si, buscando, através da dor física e psicológica, uma válvula de escape para aquilo que os atormenta. Ir além seria dar spoiler em bandeja de prata, por isso vou parar por aqui. A narrativa é linear, o ritmo é lento como qualquer bom thriller e a atmosfera é de tensão e angústia. Algumas cenas reais incluídas no filme são profundamente angustiantes e teve uma cena em que precisei fechar os olhos e tampar os ouvidos porque não suportei acompanhar (uma cena de abatedouro). É uma obra que te prende na cadeira com pregos, você fica completamente tomado pela história e se questionando aonde ela vai dar. Mas, gradualmente, a tensão vai dando lugar a uma dor aqui dentro, sabe, uma tristeza profunda, uma angústia quase insuportável. Poderia descrever o desfecho como um soco no estômago, mas a analogia é pouca diante do que temos, estaria mais para um morte lenta e dolorosa de todas as suas esperanças. TODAS. E, pior, a obra é pautada na nossa mais pura realidade. O filme deveria vir com um aviso muito sério de GATILHO PARA DEPRESSÃO E SUICÍDIO - aviso que eu digo para não ser subestimado por quem tem tendências a essas coisas. Eu terminei de ver o filme exausta. Tecnicamente o filme é todo correto, apesar de algumas pontas soltas no roteiro (a conduta da professora, por exemplo, não ficaram claros para mim seus motivos). No elenco, além de um ótimo Laurent Lafitte, destacaria o trabalho de Luana Bajrami como Apolline (a personagem ainda irá te surpreender). Gente, o filme é ótimo, mas profundamente desgastante, não vejam se não estiverem bem e fortes, sério. Eu gostei, mas precisarei de muito MUITO tempo para voltar a vê-lo. E estou pensando seriamente em rever "Cantando na Chuva" (1952), meu "bote salva-vidas" cinematográfico, ou, o filme que vejo quando estou depressiva. Recomendo com as ressalvas óbvias já mencionadas.

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