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  • hikafigueiredo

“O que Josiah Viu”, de Vincent Grashaw, 2021

Filme do dia (01/2023) – “O que Josiah Viu”, de Vincent Grashaw, 2021 – Na fazenda Graham, no sul dos Estados Unidos, o perturbado Thomas (Scott Haze) é influenciado pelas terríveis palavras de seu pai Josiah (Robert Patrick), que desenterra terríveis segredos da família. Quando uma companhia petrolífera oferece uma grande soma para comprar a fazenda, Thomas vê a possibilidade de reencontrar seus irmãos Mary (Kelli Garner) e Eli (Nick Stahl) e, assim, resolver as antigas pendências familiares.





Sinistro e perturbador, o filme mistura os gêneros drama e terror para contar a hedionda história de uma família doentia e disfuncional. Com um pé no folk horror, a obra adentra à fazenda Graham e, pouco a pouco, vai revelando detalhes assombrosos de cada membro da família, até amarrar a narrativa com um clímax tenso e sombrio, onde todas as “cartas” são abertas e as revelações tornam-se ainda mais contundentes. Como outros filmes de terror, tais como “Os Inocentes” (1961) e “Desafio do Além” (1963), a obra brinca bastante com a dualidade entre a experiência sobrenatural e a condição psicológica dos personagens, de forma que se cria uma narrativa dúbia e de limites pouco claros – o que temos é o sugestionamento de uma mente desnorteada ou uma interferência de forças sobrenaturais que buscam reparação e vingança? A resposta é pessoal e intransferível, trazendo complexidade e subjetividade ao filme. De qualquer modo e independente da leitura do espectador, a narrativa lida com questões reais extremamente pesadas no que tange aos relacionamentos familiares e abre uma discussão bem rica acerca dos traumas que um histórico familiar abusivo pode causar em cada membro de um núcleo familiar. O roteiro desenvolve-se muito bem, fazendo uso de capítulos focados em cada um dos filhos de Josiah Graham, até juntar todos em um único ambiente. Por conta do formato mencionado, o roteiro é hábil em revelar diferentes camadas da história, formando um quebra-cabeça que só se completa na última cena. A narrativa é não-linear e fragmentada, em um ritmo inicialmente vagaroso, mas que ganha “velocidade” à medida em que nos aproximamos do “gran finale”. A atmosfera é sombria, pesada, claustrofóbica e angustiante desde as primeiras cenas e não há alívio algum até a sequência final. Das questões técnicas, destaco a fotografia baseada numa câmera nervosa, muito mexida, que acompanha os personagens como o olhar de um observador incógnito. Temos planos bastante fechados, quase sempre acompanhados de movimentos de câmera, que focam, principalmente, nas expressões faciais dos personagens. Os tons amarelo-avermelhados trazem certa melancolia e enchem de emoção a fotografia colorida da obra. Confirmando a atmosfera pesada, temos uma trilha musical soturna, mas de qualidade indiscutível, firmada em músicas antigas (a presença de um toca-discos na história ressalta a antiguidade das canções, tornando diegética parte da trilha musical). O trabalho do elenco é excelente, trazendo Robert Patrick como o cruel Josiah, um personagem que beira o sadismo e é a pura expressão da maldade – para quem não se lembra do nome, Patrick é o exterminador T-1000, do icônico “O Exterminador do Futuro 2” (1991). Patrick mostra-se excepcionalmente expressivo como Josiah, justamente o oposto do personagem que o eternizou no cinema! Como Thomas, temos Scott Haze, num ótimo trabalho como o limitado personagem e catalizador final dos acontecimentos. Nick Stahl interpreta Eli, um personagem complexo e controverso, que se equilibra entre boas e péssimas ações. Kelli Garner também está bem como a instável Mary, outra vítima daquelas relações familiares profundamente doentes. Os trabalhos dos quatro intérpretes trazem lastro à obra, elevando-a a outro nível de qualidade. No elenco, ainda, Tony Hale, Jake Weber e Louanne Stephens. O filme é excelente, daqueles terrores que dão gosto de ver e nos fazem arriscar mais no gênero (para cada filme de terror excelente que vemos, assistimos a pelo menos meia dúzia de “tranqueiras”... rs). Gostei demais e recomendo muito.

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