• hikafigueiredo

"O Terceiro Assassinato", de Kore-eda Hirokazu, 2017

Filme do dia (31/2020) - "O Terceiro Assassinato", de Kore-eda Hirokazu, 2017 - Um assassinato acontece. O ex-presidiário Misumi (Koji Yakusho) se apresenta à polícia e confessa o crime. O advogado Shigemori (Masaharu Fukuyama) é destacado para defendê-lo e tentar evitar a pena de morte. Mas sequenciais modificações de versão de Misumi trarão dúvidas às convicções do advogado.





O fantástico diretor Kore-eda tradicionalmente foca sua atenção em dramas familiares intimistas, sempre muito delicados. Aqui ele optou por um suspense policial, mas, em momento algum, afastou-se das obras intimistas e delicadas. O filme está menos interessado em desvendar o assassino e mais inclinado a estudar a percepção de todos - juiz, advogado e público - acerca da culpa e do ato de julgar o outro. Constrói-se, então, um verdadeiro quebra-cabeça e a todo momento nossa concepção de verdade - de "o que aconteceu na realidade" - é posta à prova - e é engraçado, porque percebi que o espectador assume um posicionamento e praticamente torce para que sua "verdade assumida" seja confirmada ao final do filme. A obra, também, questiona a justiça - não apenas a justiça no sentido do que é "certo ou errado", mas, ainda, a forma como o Judiciário conduz seus procedimentos. É um filme um pouco incômodo, pois mais questiona do que oferece respostas e soluções e a gente termina com um certo nó na garganta ao ver como o caso se desenvolve. Ah, sim... toda a narrativa é construída com extrema sensibilidade pelo diretor e é espetacular a forma como ele constrói seus personagens - ninguém ali é raso ou simples, todos os personagens têm volume e complexidade, em especial o suposto assassino, um homem capaz de atrocidades e, ao mesmo tempo, de fala mansa e pensamentos complexos. Além da direção delicada, mas segura, de Kore-eda, temos um trabalho muito bom de interpretação dos atores principais - tanto Masaharu Fukuyama, quanto Koji Yakusho dão credibilidade a seus personagens, o primeiro perdido em seus questionamentos e o segundo conduzindo o julgamento conforme suas convicções de justiça. É um filme excelente, gostei demais - como gosto de tudo desse diretor, diga-se de passagem - e recomendo com prazer.

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