“Oeste Outra Vez”, de Érico Rassi, 2024
- hikafigueiredo
- 12 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (24/2025) – “Oeste Outra Vez”, de Érico Rassi, 2024 – No sertão de Goiás, um homem abandonado pela esposa promete vingança àquele que deu causa ao abandono, dando início a uma escalada de violência.

Como o próprio nome da obra já indica, o filme é uma releitura abrasileirada do western. Como no clássico gênero estadunidense, teremos perseguições, disputas e violência, mas trazidas para a nossa realidade do interior do país. Sai o glamour com o qual eram representados os confrontos entre pistoleiros rivais, entra a verdadeira face dos confins do Brasil, onde a pobreza e a falta de perspectiva imperam. Dito isso, o filme é um retrato do universo masculino, especificamente das classes mais populares, onde não há espaço para fragilidades, diálogos sinceros ou demonstrações de emoções. Na história, dois homens disputam a atenção da mesma mulher. Aquele que foi abandonado é incapaz de lidar com a perda, a solidão e os sentimentos de tristeza e rejeição. Toda a sua dor não dita e não trabalhada internamente é exteriorizada através da violência e das promessas de vingança ao rival. A obra toda é um reflexo dos estragos causados pelo machismo e pelo patriarcado, os quais estabeleceram que homens não podem chorar, não conversam entre si sobre seus sentimentos, não devem demonstrar suas fraquezas e dores e que precisam provar sua masculinidade constantemente. O resultado é a completa ausência de comunicação entre as partes contrárias e, claro, a violência física. O filme, assim, consegue condensar a essência da masculinidade tóxica, colocando-a em imagens e sons. A dificuldade de diálogo entre os personagens é sintomática – eles até tentam conversar sobre seus dramas pessoais, mas faltam-lhes palavras, tanto para expressar seus sentimentos, quanto para oferecer qualquer forma de acolhimento ao outro. Nestas tentativas de conversas, ainda que sobre o velho companheirismo entre homens, faltam profundidade, reflexão e autoconhecimento. É um ambiente tão masculino que eu, enquanto mulher, senti como se estivesse olhando pelo buraco da fechadura um outro mundo ao qual não pertenço e não entendo. O filme é tão sobre o universo masculino (na sua pior acepção) que inexistem figuras femininas ao longo de toda a trama, com exceção de uma breve cena em que a tal mulher disputada abandona o espaço de interação violenta entre seus dois pretendentes, os quais se socam ferozmente. Achei a forma como o diretor construiu toda essa realidade fundada na “macheza”, no brio ferido do homem brasileiro, disposto a tudo para provar que é macho, viril e poderoso, simplesmente sensacional. Também achei incrível a reprodução dos espaços de interação entre esses homens – os botecos sujos do interior, onde se encontram para beber, jogar e rir ao som do melhor da música brega e da “sofrência”, espaços onde a presença feminina é esquecida e dispensada e onde a profunda homoafetividade masculina é vivenciada com fervor. Nota dez para o desenho de produção, trilha sonora (breguésima) e edição de som – a última, inclusive, ganha espaço de destaque justamente pelos longos silêncios entre os personagens, ressaltados pelos ruídos cotidianos, propositalmente “aumentados”. Amei a escolha do elenco – se nos westerns estadunidenses era hábito a presença de atores bonitos, másculos e idealizados, aqui o diretor optou por atores com aparência comum, que poderiam ser facilmente encontrados em qualquer botequim de estrada – de um lado, Ângelo Antônio com seu aspecto “mirrado”, de outro, Babu Santana, com sua forma roliça, ambos naturalmente vestidos com roupas simples e sem qualquer glamour. Completando o elenco, Rodger Rogério, Daniel Porpino, Adanilo e Antônio Pitanga – nenhum deles dentro do estereótipo de beleza socialmente estabelecido e todos com uma interpretação esplêndida. Crítica: a violência não alcançar a mulher da disputa me pareceu conto da carochinha – sabemos que o Brasil é um dos países com maior incidência de feminicídios e ignorar isso é passar um pano inaceitável. Apesar disso, o filme é muito bom, riquíssimo em interpretação, profundidade e leituras. Ah... muitos espectadores devem estranhar o ritmo... o filme é bem lento, com muitos tempos de espera até termos as explosões de violência – isso pode incomodar parte do público, mas é essencial para transmitir certas sensações de esgotamento, ansiedade e apreensão. Mais uma vez, não é filme para qualquer público, há que se ter certa sensibilidade e disposição para fazer aquela leitura além. Eu gostei demais e recomendo! Até semana passada estava nos cinemas, agora acredito que teremos de esperar um pouco para chegar ao streaming.



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