• hikafigueiredo

"Os 39 Degraus", de Alfred Hitchcock, 1935

Filme do dia (21/2022) - "Os 39 Degraus", de Alfred Hitchcock, 1935 - Richard Hannay (Robert Donat) é um turista canadense em viagem à Londres que, inadvertidamente, conhece a misteriosa Annabella Smith (Lucie Mannheim). A moça lhe narra uma inacreditável história sobre espiões e perseguições, a que Hannay não dá muito crédito. Ocorre que, durante a noite, Annabella - que estava abrigada na residência de Hannay - é assassinada. O rapaz, então, percebe que a única forma de provar sua inocência - afinal, a mulher fora assassinada dentro de sua própria casa - é desmascarar a mencionada rede de espiões e frustrar planos do tal grupo de levar um segredo nacional para fora do Reino Unido. Perseguido impiedosamente pela polícia, Hannay correrá contra o tempo para evitar que o segredo saia do país.




Baseado no romance homônimo de John Buchan, este é considerado o principal filme da fase inglesa do diretor (o qual mudou-se para os EUA em 1939, realizando, ali, suas principais obras-primas). A obra foi a primeira a explorar elementos recorrentes da filmografia do diretor, em especial a ideia do personagem inocente que é injustamente acusado e perseguido, tendo de se envolver em questões alheias à sua pessoa para provar sua inocência - o que, aqui, inclusive, é o argumento principal da trama. O personagem Hannay vê-se envolvido numa conspiração internacional envolvendo espiões mercenários que têm a tarefa de levar para o exterior informações vitais para o país em que se encontra de férias. Na pura intenção de livrar sua pele da acusação de assassinato - já que as questões de segurança interna do país em questão sequer lhe diriam respeito -, Hannay sai tateando os poucos dados que recebeu de Annabella buscando uma forma de provar sua inocência enquanto é perseguido pela polícia, bem como pelos responsáveis pela morte da mulher. Apesar de se tratar de um eletrizante thriller, a obra dá espaço para certo humor e uma boa dose de romance - uma vez que Hannay se verá envolvido com a jovem Pamela, uma mulher que, sem acreditar nas suas explicações, o entregará para a polícia, mas terá de amargar muito tempo na companhia do pretenso assassino. Como qualquer filme de espionagem, há passagens para lá de inverossímeis, exageros extremos e "conjunções aleatórias de astros" que permitirão que o protagonista se safe de situações cabais - mas quem se importa, quando a ação é frenética e o espectador já desenvolveu tal empatia pelo personagem que torce ferrenhamente pelo seu sucesso? Aliás, reside aí boa parte do sucesso da obra: o personagem Hannay é de uma simpatia incomum e o fato de sabermos de sua inocência, tornando-nos quase cúmplices de suas ações, somado a um certo humor irônico do personagem, fazem com que o espectador tome partido explícito pelo protagonista e sofra com cada revés que surge em seu caminho - que são muitos, diga-se de passagem. A narrativa é linear, em ritmo intenso e constante. A atmosfera, lógico, de tensão e apreensão, não só pela perseguição em si, mas também por certa corrida contra o relógio. Visualmente, o filme aposta numa fotografia P&B muito contrastada, com uma grande variação de planos - há inúmeras cenas de planos abertos, em especial retratando a perseguição direta do protagonista pela polícia, como nas montanhas da Escócia, até planos-detalhes que destacam elementos importantes, como na cena do hinário (sem spoilers) ou das algemas -, e posicionamentos de câmera variados e criativos. Hitchcock dominava com primazia a linguagem cinematográfica e conseguia direcioná-la completamente para a criação de um suspense extremamente sólido, mesmo quando o filme era pontuado por outros gêneros (no caso, o romance e a comédia). O elenco é formado pelo ótimo Robert Donat, que imprimiu charme e simpatia ao protagonista Hannay (além de ser uma graça!); Madeleine Carroll interpreta a "loira da vez", Pamela, numa interpretação convincente da moça que se vê presa ao homem que denunciou à polícia e pelo qual verá surgir uma surpreendente tensão sexual-amorosa; Lucie Mannheim interpreta Annabella e seu pouco tempo de presença em cena não impede que sua interpretação da enigmática personagem seja instigante; Godfrey Tearle interpreta o Professor Jordan, muito bem no papel. Ainda que não alcance a magnitude de filme posteriores do diretor, como "Festim Diabólico" (1948), "Janela Indiscreta" (1954), "Um Corpo que Cai" (1958) e "Psicose" (1960), dentre outros, a obra já indicava que o diretor encontrava-se na direção certa e em franca ascensão. O filme é deliciosamente incitante e divertido, merece ser visto e revisto várias vezes!!!! Filmaço!!! Recomendo!

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