“Os Amantes da Ponte Neuf”, de Leos Carax, 1991
- hikafigueiredo
- 26 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (47/2025) – “Os Amantes da Ponte Neuf”, de Leos Carax, 1991 – Às vésperas do Bicentenário da Revolução Francesa, o sem-teto e adicto Alex (Dennis Lavant) conhece Michèle (Juliette Binoche), uma pintora que, por conta de um amor frustrado e uma doença visual degenerativa, também acabou nas ruas. O casal apaixona-se, mas a relação acaba se tornando tóxica à medida em que Alex teme perder a amada.

Extravagante e visceral, o filme consegue extrair poesia de situações e locais improváveis – da vida nas ruas de Paris e, mais especificamente, da existência ao longo da Ponte Neuf, a ponte mais antiga da cidade e, na época, fechada para reforma. É aí, no meio do lixo e dos escombros de uma construção decrépita, que o casal Alex e Michèle desenvolverão sua paixão, marcada por dependência, posse e medo. Na história, Alex é um viciado em álcool e sedativos que sobrevive de pequenos delitos e do que extrai como artista de rua em Paris. Certo dia, Alex irrita-se com um novo sem-teto que ousou ocupar “seu canto” na Ponte Neuf, mas quando pensa em expulsá-lo, percebe tratar-se de uma moça. Rapidamente, Alex encanta-se pela jovem, uma pintora que, paulatinamente, está perdendo a visão devido a uma doença degenerativa nos olhos. O encantamento acaba sendo recíproco e Michèle, já próxima da cegueira, torna-se, gradativamente, dependente física e emocional de Alex. O filme discorre sobre relações amorosas complexas, pautadas por dependência psicológica, excessos, posse, egoísmo e fragilidades. Muito embora Michèle tenha uma dependência prática de Alex, é ele quem teme perder a amada e mostra-se inseguro em relação ao amor da jovem, demonstrando verdadeira subordinação emocional a ela. A narrativa acompanha o desenvolvimento dessa relação conturbada, agoniada e doentia, mostrando a ânsia do casal em viver intensamente cada momento, ao mesmo tempo em que se entrega a seus vícios para suportar aquela existência à margem da sociedade e de qualquer conforto. É uma obra incrível e estranhamente poética, pois traz uma beleza inaudita de toda aquela situação precária – e a produção não poupa o espectador da realidade: os personagens apresentam-se imundos, com roupas em trapos, feridos e vivendo em meio ao lixo da cidade. Mas, diferente de um filme como “Sem Teto Nem Lei” (também conhecido como “Os Renegados”) (1985), de temática semelhante, em que a carga dramática é pesada, aqui temos a leveza do romance, ainda que a relação não seja nada saudável. Eu confesso que me senti inebriada pelo filme, simplesmente me apaixonei, sendo a obra mais “normal” de Leos Carax que eu tenha visto até o momento (vide “Holy Motors”, 2012, e “TóKyo!”, 2008). Trazendo uma fotografia que contrapõe o cinza das ruas com as cores das roupas de Michèle e o colorido dos fogos de artifício das festividades pelo Bicentenário da Revolução Francesa, o filme tem uma construção imagética impressionantes. O destaque fica por conta do desenho de produção que, inclusive, construiu uma réplica da Ponte Neuf, quando essa foi proibida de ser utilizada para o filme pelas autoridades parisienses. Merecem elogios, ainda, o roteiro amarradinho e sem arestas, a montagem precisa e, claro, as interpretações da musa Juliette Binoche como a sofrida Michèle e do sensacional Dennis Lavant, ator reiterado na obras de Carax, como o controverso Alex, dois personagens melancólicos que despertam sentimentos contraditórios no espectador, que misturam raiva, compaixão e carinho. Destaco, ainda, a cena da dança de Michèle na ponte e da apresentação de Alex nas ruas – duas cenas maravilhosas. Repito: estou apaixonada por este filme! Estupendo! Segundo o Justwatch, disponível em streaming apenas na plataforma Oldflix (eu vi por mídia física, uma luta para conseguir esse DVD!!!!).



Comentários